Timewave Zero

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A Teoria
A Timewave Zero é um gráfico do tempo em função da novidade revelado a Terence McKenna após sua viagem à La Chorrerra na Colômbia, onde usou altas doses de cogumelosPsilocybe cubensis e outros enteógenos durante os meses de uma expedição etnológica com seu irmão e demais amigos da Universidade de  Berkeley. Sua viagem foi documentada em seu livro True Hallucinations e sua teoria no livro The Invisible Landscape, além de ter sido abordada em várias de suas palestras que podem ser encontradas facilmente na rede.
McKenna parte da teoria de que o universo é uma máquina produtora de novidades ( novelty producing engine ) que produz novos fatos cada vez mais rápido com o passar do tempo, como podemos perceber pelo avanço de nossas tecnologias, pelas reviravoltas da nossa arte e pela nossas próprias intuições sobre as nossas vidas. Segundo a Timewave Zero, essas novidades são produzidas por meio de ressonâncias: cada dia ressoa com outros quatro dias no passado, e fatos semelhantes entre esses dias tenderão a acontecer. Os intervalos entre esses dias vêm da astrologia chinesa: eles e alguns exemplos de ressonâncias estão sob o tópico Exemplos.
Conforme o tempo passa, as ressonâncias se tornam exponencialmente mais densas, produzindo cada vez mais novidade. A quantidade de novidade em cada instante é calculada a partir dos hexagramas do I Ching, em um processo matemático que foi documentado por Sheliak  em A Mathematical and Philosophical Re-Examination of the
Os dias que vão de 17 de fevereiro deste ano até o dia 21 de dezembro ressoam com toda a história da humanidade; partindo do dia 1 de dezembro iremos novamente realizar essa ressonância, até o momento do dia 21, quando toda a história da humanidade será recontada em um só instante, e o tempo irá parar de fluir linearmente: esse momento se chama de Singularidade ( Singularity ).
McKenna levantou algumas hipóteses sobre o que poderia ocorrer em 21 de dezembro, mas disse que não esperava nada muito brando ( como certas dissidências cristãs que dizem que o mundo já acabou e que ainda iremos perceber ) nem muito radical ( como o Apocalipse bíblico ). Ele tendeu à abraçar a hipótese de uma grande descoberta tecnológica, como viagem no tempo, ou ainda a dissolução da barreira espiritual que separa o nosso mundo do além túmulo, com a criação de uma região intermediária entre os dois domínios que poderíamos acessar a qualquer hora.
É uma coincidência notável que o gráfico de McKenna tenha simetria de datas com o calendário maia ( Maya Long Count ), que também termina um de seus ciclos em 21 de dezembro. Isso se dá por terem usado a mesma fonte bibliográfica, o cogumelo teonanacátl.
Existem vários obstáculos para a discussão das idéias de McKenna, e outros ainda mais altos para a sua aceitação. A histeria que cerca o final de 2012, com uma imensidão de teorias da Nova Era sem pé nem cabeça, e a desinformação em torno do assunto enteógenos, contribuem para que sua teoria tenha sido nos últimos anos desacreditada por muitas pessoas sem qualquer exame atencioso. Além disso, a incapacidade das pessoas de perceberem mudanças drásticas quando acontecem, conhecida na filosofia como Teoria do cisne preto ( Black Swan theory ), contribui ainda mais para que não se perceba aquilo de que McKenna está falando.
Exemplos
Multiplicando a distância de um dia até 21 de dezembro de 2012, chamada de x, pelos números abaixo, encontramos as suas ressonâncias.
1ª ressonância : x * 6 ;
2ª ressonância : x * 6 * 64 ;
3ª ressonância : x * 6 * 64 * 64 ;
4ª ressonância : x * 6 * 64 * 64 * 6 .
Fonte : Where did the Timewave come from? ( Incluído em The Invisible Landscape ).
O início e o fim da Guerra do Golfo ressoam com o início e o fim das batalhas de Maomé em Medina. A morte de Michael Jackson ressoa com a morte de Jean-Paul Marat, que também sofria de doenças de pele e tinha imensa fama entre o povo. O 11 de Setembro ressoa com a fundação da Al-Qaeda, com a criação do modelo de Boeing que derrubou as torres e com a conquista do território onde hoje fica o Afeganistão. O Terceiro Reich ressoa com o auge do Egito, com suas massas de trabalhadores uniformes, um líder com poderes divinos e uma preferência por obras faraônicas.
Steve Krakowski
Steve Krakowski, em An Ancient and Occult Genetic Code, criou uma tabela que cria correspondências entre os aminoácidos, os hexagramas do I Ching, as letras da Árvore da Vida ( Sephirot ) e as cartas do Tarô.
Suas correspondências confirmam ainda mais as teorias de McKenna. O resto da divisão x / 64 ( sendo x a distância de um dia até 21 de dezembro de 2012 ) é o hexagrama daquele dia. Para o dia 11 de Setembro de 2001, o hexagrama encontrado é, segundo Steve Krakowski, correspondente à carta de Tarô A Torre ( The Tower ), que mostra uma Torre caindo.
Conclusão
Embora exista evidência sistemática de que McKenna esteja certo, ela parte de fontes desacreditadas pelo público geral: as suas provas vem da Cabala, da astrologia, do I Ching e do cogumelo sagrado. Vejo que sua teoria, portanto, só será útil e discutida com coerência após o dia 21, quando terá se tornado óbvio que a sua profecia se realizou.
Uma curiosidade: McKenna aponta que o calendário maia foi descoberto no momento do abandono completo das cidades maias, que até hoje permanece inexplicado pela história. Embora alguns apontem secas e epidemias como a causa, McKenna diz que o calendário, assim como o gráfico, apontou a lógica astrológica da história da humanidade, o que fez com que seus aderentes desistissem da vida civilizada.

Sociedade Psicodélica

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Sociedade Psicodélica

Terence McKenna


Baseado em uma fala dada em um encontro da ARUPA
no Instituto Esalen em junho de 1984.


Eu quero falar esta noite a respeito da noção de uma sociedade psicodélica. Quando eu falei em Santa Bárbara em uma conferência sobre psicodélicos em maio de 1983 minhas lentes de contato falharam em um ponto crítico na minha leitura e eu simplesmente tive que improvisar. Mais tarde quando eu ouvi a fita da gravação eu ouvi a frase “sociedade psicodélica.” Eu nunca usei este termo conscientemente em uma conversa. Mas porque eu havia dito, e porque havia acontecido uma ressonância através das pessoas que estavam lá, eu comecei a pensar sobre isso e esta noite irei especular sobre o que isto pode significar para nós.

Quando eu penso em sociedade psicodélica, esta noção implica em criar uma sociedade que vive à luz do Mistério da Existência. Em outras palavras, problemas e soluções deveríam ser retiradas de seu papel central nas organizações sociais, e Mistérios – Mistérios irredutíveis – deveriam estar em seu lugar. Nos anos 20 o entomologista britânico J.B.S. Haldane disse em um ensaio, “O universo pode não ser apenas mais estranho como supomos; ele pode ser mais estranho do que nós podemos supor.”

Eu sugiro que assim como nós olhamos para trás em cada ápice da civilização na história humana - seja ela Maia, ou Greco-Romana, ou a Dinastia Sung – temos acreditado que isso aconteceu graças à posse de uma descrição apurada do cosmos e da relação do homem com ele. Isto parece ir junto com o completo florescimento de uma civilização. Mas, a partir deste ponto de vista da nossa presente civilização, nós consideramos todas estas concepções como se fossem piores, de segunda mão. Nós nos orgulhamos que nossa civilização tem a última e real descrição sobre o que está acontecendo.

Eu considero isto um erro, e que atualmente nos cega, ou torna nosso progresso histórico muito difícil, é nossa falta de atenção que nossas crenças se tornaram obsoletas e deveríam ser colocadas de lado. Uma sociedade psicodélica abandonaria os sistemas de crenças pela experiência direta. É o que eu penso a respeito a do problema do dilema moderno: a experiência direta foi descontada, e no seu lugar todos os tipos de sistemas de crença foram criados.

Eu preferiria um tipo de anarquia intelectual onde não importa o quê fosse pragmaticamente aplicável e fosse trazido de qualquer situação; onde crença fosse entendida como uma função auto-limitante. Porque, veja, se você acredita em alguma coisa você é automaticamente impedido a acreditar em seu oposto; que significa que um grau da liberdade humana foi coisificada no ato de se submeter à esta crença.

Eu insisto que é supérfluo ter crenças, porque o universo é realmente mais estranho do que nós supomos, precisamos retornar para o que no século XVI era chamado de método Baconiano; que não significa a elaboração fantástica de construções de pensamentos que explicam a natureza, mas somente uma catalogação dos fenômenos que nós experimentamos. Redes de computadores e drogas psicodélicas e a crescente disponibilidade de informação no mundo têm tornado possível a evolução de novos estados de informação que nunca existiram anteriormente. Estamos processando estas novas oportunidades em uma razão muito devagar porque estamos sendo impedidos pela ideologia.

Os modelos Freudianos e Junguianos enxergam a experiência psicodélica como um desmantelamento da resistência em revelar emoções, motivos e sistemas de crenças escondidas e complexas. Esta noção, há cinco ou dez anos, foi substituída pelo modelo de experiência alucinógena xamânica. Este modelo sustenta que pessoas arcaicas têm delegado membros especiais de uma sociedade para provar informações de domínio secreto usando drogas psicodélicas. A informação extraída destes domínios são então usadas para guiar e direcionar a sociedade.

Eu estou interessado neste segundo modelo. Tenho gastado algum tempo na Amazônia e estou familiarizado com os mecanismos operacionais do xamanismo e personalidades xamânicas. Acredito que a experiência psicodélica vai além da instituição do xamanismo. Estamos diante de uma oportunidade única de arremessar de lado a crise da cultura mundial.

Nossa habilidade de destruir a nós mesmos é a imagem espelhada da capacidade de nos salvarmos. O que está faltando é uma visão clara do quê deveria ser feito. O que deveria ser feito certamente não é a acumulação cada vez maior de arsenal termonuclear ou a promoção de todo o tipo espetáculos de primatas – que Tim Leary tem muito bem denunciado. O que precisa ser feito é que nossas concepções ontológicas fundamentais de realidade precisam ser refeitas. Precisamos de uma nova linguagem, de modo que para ter uma nova linguagem precisamos de uma nova realidade. É um tipo de equação urobórica, ou uma situação de desvencilhamento. Uma nova realidade gerará uma nova linguagem. Uma nova linguagem fará uma nova realidade se legitimar e ser uma parte desta realidade.

As substâncias psicodélicas podem ser imaginadas como pontos de uma grade de informações. Elas provêm novas perspectivas na realidade, e quando você reconecta todos os pontos de vista que você coletou considerando realidade, então um modelo aplicável de realidade e que faça sentido começa a surgir.

Eu penso que esta realidade aplicável e que faça sentido – o que Wittgenstein nomeou algo como “suficientemente verdadeiro” - é o que estamos procurando. O “suficientemente verdadeiro” mapeando por cima da teoria é o que estanos procurando, mas a experiência deve ser feita primeiro. A linguagem do Eu deve ser feita primeiro.

O que eu estou defendendo é que cada um de nós tome responsabilidade pela transformação cultural, que não é algo que seria disseminado de cima para baixo. É algo que cada um de nós podemos contribuir nos esforçando a viver tão para dentro do futuro quanto possível. Devemos nos livrar das concepções de anos 40, 50, 60, 70, 80, 90. Devemos transcender o momento histórico e tornarmos exemplares de humanidade no Fim do Tempo.

Alguns de vocês que acompanham minha leitura esta tarde se preocupam em saber que eu acredito que liberação – ou vamos dizer “decência” - como uma qualidade humana e antecipação deste estado perfeito da humanidade futura. Podemos ter vontade de aperfeiçoar o futuro nos tornando um microcosmo do futuro perfeito, não mais distribuir culpa para instituições ou hierarquias de responsabilidade ou controle, mas dar-nos conta que a oportunidade está aqui, a responsabilidade está aqui, e os dois nunca se tornem congruentes denovo. A salvação para o nosso espírito imortal depende do quê você faz com as oportunidades que a vida lhe dá.

Então, o que faremos com a oportunidade? O quê significa dizer, em termos operacionais, “Viva tão longe ao futuro quanto puder?” Significa tomar uma posição vís à vis da emergente realidade hiper-dimensional. Isto não significa necessariamente tornar-se um usuário de drogas psicodélicas; mas significa admitir esta possibilidade. Se você sente um potencial heróico dentro de você para ser um dos experimentadores – um dos pioneiros – então você sabe o que fazer. Se por outro lado você se sente perdido no abismo – se você se sente como William Blake chamou de “caindo para a eterna morte,” caindo do espiral da existência que conecta uma encarnação à outra – então oriente-se para a experiência psicodélica como uma fonte de informação.

Uma imagem espelhada da experiência psicodélica emergiu com o hardware e software integrados às redes de computadores. A internet e a www são, paradoxalmente suficientes, uma profunda influência feminilizante na sociedade. Isto está no desenvolvimento de hardware/software que inconscientemente está se tornando consciente. Esse é um pensamento que tomamos do bon mot platônico - “Se Deus não existisse, o homem deveria inventá-lo” - e disse, “se a inconsciência não existe, a humanidade a inventará na forma de vastas redes que serão capazes de transferir e transformar informação.”

Isto é, de fato, onde estamos presos: a transformação de informação. Nós não mudamos fisicamente nos últimos quarenta mil anos. O tipo humano está bem estabilizado antes do fim da última glaciação. Mudanças que foram feitas antigamente no âmbito biológico está acontecendo agora no âmbito cultural. Estamos abrigando presunções culturais e nos preocupando com nossa visão do mistério unitário em uma razão cada vez mais rápida, enquanto tentamos nos acomodar ao desdobrameno daquele mistério que se deita diante de nós no tempo. Este é o processo que está fundindo a vasta sombra de destruição por cima de toda a experiência da história humana.

Anterior à nossa própria era, a única palavra que poderia ser aplicada para esta força que faz as pessoas se unirem, causando nascimento e morte, levantando e derrubando civilizações, era Deus; e isso era imaginado como uma forna auto-consciente que estava aprendendo a respeito do mundo como um gato aprende a respeito do aquário e fazendo as coisas acontecerem. Agora temos uma noção diferente – a noção de um sistema vetor que força uma grande área que está sendo empurrada para um espaço muito pequeno, e este pequeno micro-setor de tempo/espaço é a história. É um ímpeto que os budistas chamam de “o reino densamente empacotado,” um reino onde os opostos estão unificados.

A história é este reino onde o corpo é finalmente interiorizado e a mente exteriorizada. Penso a mente como um órgão da quarta dimensão no nosso corpo. Você não pode vê-lo porque ele está na quarta dimensão, mas você experimenta uma baixa dimensão seccionando-a no fenômeno da consciência. Mas isto é somente uma secção parcial. assim como uma elipse é um desenho parcial de um cone.

O crescimento dos sistemas de informação é somente um reflexo do hardware masculino do que já existe na natureza como um fato. Agora nos resta afiar nossas intuições e nos tornarmos atentos a este sistema preexistente e ligá-lo para que possamos estar um passo a frente dos dualismos que nos separam dos outros e do mundo. Precisamos nos dar conta que há um enxame de genes – e não um grupo de espécies – no planeta; que metade do tempo você está pensando no que está escutando; que idéias são criaturas notavelmente escorregadias que são difíceis de traçar sua origem; e que estamos realmente no mano-a-mano e todos juntos em uma dimensão que não é tão acessível e sólida como você desejaria que fosse (como Joyce comenta em Finnegan's Wake).

Os psicodélicos são o red-hot, a edição social/ética porque eles são agente descondicionadores. Eles levantarão dúvidas se você é um rabino ortodoxo, um antropólogo marxista, ou um homem de altar porque o seu negócio é dissolver sistemas de crenças. Eles fazem isso muito bem, e depois eles deixam você com uma ferida na experiência, o que William James chamou – tomando uma experiência infantil – “uma confusão florida, barulhenta.”

Fora isso você reconstrói o mundo e precisa entender que esta reconstrução é um diálogo onde suas decisões – a projeção de sua gramática no espaço intelectual em sua frente – irá formar um gel sobre o ser. Nós todos criamos nosso próprio universo porque estamos todos operando com a nossa própria linguagem privada que são somente traduzíveis através da linguagem de outra pessoa. Há ainda um análogo físico a isto que irá promover um reforço desta noção de separação e nossa singularidade.

A imagem do mundo que se forma em seus olhos é feita de fótons. Fótons são minúsculos pacotes de luz tão próximas que podem ser pensadas como partículas. Isto significa que cada fóton que toca o fundo dos seus olhos é diferente dos fótons que tocam o fundo dos olhos de qualquer outra pessoa. Isto significa que eu me baseio em uma seção do mundo 100% diferente da imagem que qualquer um de vocês estão se baseando. E ainda estamos sentados aqui com uma suposição ingênua de que nossas imagens do mundo diferem somente pela nossa perspectiva dentro do espaço desta sala.

Temos inúmeras suposições ingênuas como esta construção do nosso pensamento. Nosso mecanismo explanatório mais venerado – tal como “ciência” - surge também como nosso mecanismo explanatório mais velho. Portanto, eles têm se construídos como a mais ingênua e não-examinada suposição. “Ciência”, por exemplo, podemos demolir em trinta segundos. A “ciência” diz a você um grupo de condições que criará um efeito dado, e a cada momento que o grupo de condições estiver em seu lugar o efeito será obtido. O único lugar que isto acontece é dentro de um laboratório. Nossa experiência não é assim. O contato com uma pessoa é sempre diferente. A experiência de fazer sexo, comer uma refeição, tomar um ônibus – isto penetra no ser – e torna suportável de todo jeito. A “ciência” ainda deseja dizer a você que somente o valor das coisas descritas em um fenômeno podem ser disparadamente repeditas. Isto se dá porque estes são somente os fenômenos que a ciência pode descrever, e é o nome do jogo com o qual ela se preocupa.

Mas nós temos que reivindicar nossa liberdade – tomar vantagem do abismo minúsculo entre o imenso abismo do desconhecimento; seja talvez a morte, ou reencarnação, ou transições para outras formas de vida. Estas coisas nós não sabemos ou entendemos, mas no momento que somos humanos temos a rara oportunidade de descobri-las. E eu tenho fé de que isto é possível – em algum lugar ou em algum momento. Talvez nenhum progresso seria feito até a nona hora em que a realidade pudesse ser literalmente fragmentada em pedaços, para além do ponto de reconstrução.

Existe, definitivamente, uma tendência anti humanista em todos os sistemas, Ludwig von Bertalanfe, que foi o inventor da teoria dos sistemas gerais, disse, “pessoas não são máquinas, mas em toda situação que elas tiverem a oportunidade, elas irão agir como uma.” Estamos todos caindo em padrões. Nós seguramos estes padrôes cada vez mais forte. Eles não podem ser violados; e isto acontece no nível das idéias.

Estamos agora no crista da onda da história, em tipo de aperto que nos devolve ao passado. Espero que tenhamos chegado ao fim desta fase. Queira você comprar minha visão apocaliptica transformadora envolvendo 2012, ou queira você dizer que somente por olhar ao seu redor você tem certeza que, logo, logo, a merda vai ser atirada ao ventilador, eu acho que nós concordamos que estamos diante de um impasse. O que está para acontecer será ou um grande deslocamento da biosfera, causando uma invalidação da inteligência como uma adptação biológica e nossa extinção; ou iremos nos tornar – como James Joyce sonhou - “o homem auto governável;” em outras palavras, a exteriorização do espírito e a interiorização do corpo.

Neste processo, tudo terá de ser desafiado. Toda a noção de humanidade será desafiada. Estamos à beira da manipulação do DNA, ou de tomar controle da forma humana, de sermos capazes de extender a noção de arte para dentro do corpo humano. Somos clássicos? Deveríamos ser Adonis e Perséfone? Ou o que somos nós? Somos surrealistas? Deveria eu ser uma batata ou uma girafa em chamas? Estas são questões que terão de ser enfrentadas. Eu sorrio enquanto falo isto, mas estas questões são importantes.

E a noção de ganho vertical que vemos nas metáforas feitas em relação à experiência psicodélica: expansão da consciência, ficar chapado (getting high - a tradução seria “elevar-se”), viagem psicodélica, vôo xamânico. É como se os alucinógenos fossem o feminino, o software, o formador, o cabo condutor do que está ocorrendo. Seguindo por trás vem o hardware, a mentalidade construtora masculina.

Isto irá continuar até que o cabo condutor das longas distâncias da engenharia contrutora se rompa. Esta é a crença xamânica: que nós podemos encontrar uma maneira de usar químicos em nossos corpos, usar nossas vozes, nossos pensamentos e nossas mãos por sobre nós e sobre os outros; para tranformar nós mesmos sem nenhuma tecnologia; para nos movermos no reino da imaginação com uma tecnologia psicofarmacológica interiorizada que nos liberte dentro da nossa imaginação.

Ao mesmo tempo isto está acontecendo com a mentalidade construtora masculina, que irá colocar sociedades humanas na órbita da terra/lua e em planetas próximos. Mas há um porém para a mentalidade construtora, que é um vácuo que envolve os planetas e exemplifica este abismo e o elemento feminino. É o mistério da Mama matrix de Finnegan's Wake. A misteriosa Mama matrix é o universo, e não há como escapar deste fato. Mas eu penso que a mentalidade construtora, que irá tentar transformar o homem em suas máquinas será desestabilizado pelos psicodélicos, pelo pensamento voltado ao planeta, pelo lado voltado à imaginação de nossa consciência, que irá criar as bases para o casamento espiritual que será a incubação química de um novo formato da humanidade; e isto não está longe.

Não pode estar longe. Esta é uma responsabilidade inerente a todos nós que nos faz criá-la. Há uma obrigação definida para examinar as possibilidades de ação, e para pensar claramente sobre si e sobre o outro, sobre a linguagem e o mundo, sobre o passado e o presente. Por muito tempo nós vivemos em um mundo definido pela geografia. Se você nasceu na Índia, você achará que o cosmos é de uma maneira. Se você nasceu no Brooklyn, você achará de outra. Precisamos transcender estas grades do destino biológico, que nos torna aquilo que nós não queremos ser. Nós podemos clamar por este nível mais alto de liberdade através do simples ato de prestar atenção à existência.

Precisamos começar a exprimir nossas visões ideológicas antes que sejamos consumidores das próprias. Precisamos desligar a nossa TV interna que nos puxa para as suposições culturais ditadas pelo Pentágono, Madison Avenue, e pelo estado corporativo. Precisamos, ao invés disso, ligar nossos modems e começar a interagir como pessoas dotadas de mentalidade pelo mundo afora e estabelecer esta nova ordem intelectual que será a salvação da biosfera, eu acredito firmemente nisto. A internet finalmente concretiza nossa coletividade permitindo que pessoas sintam a interrelação de seus destinos; sentem a interrelação como uma coisa que transcende divisões nacionais, divisões ideológicas. A net permite que cada um de nós recupere a experiência de ser parte de uma família humana.

Nenhuma reconstrução de sociedade pode ser feita sem psicodélicos porquê nós perambulamos durante muito tempo sem eles. Certamente somos produtos de uma sociedade que foi longe demais sem psicodélicos como nenhuma outra cultura no mundo. Isto foi há dois mil anos desde que o Mistério foi real em Eleusis e nestes dois mil anos perambulamos longe na disfunção e na confusão. Mas nós somos filhos pródigos. Podemos reparar a idéia de xamanismo a partir do estase social pré-tecnológico e projetá-lo, aperfeiçoá-lo e viajar com ela para além das estrelas.

E se não fizermos, tudo estará perdido. Há somente riscos e comprometimentos nestas aspirações milenares e nestas metas culturais, metas que têm o potencial de restaurar o significado e a direção para nossa civilização. Se isto não for feito iremos fragmentar nossa oportunidade e deixar o horror e a destruição do típico cenário futuro.

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Anarquicamente copiado de: 
FORTE, Robert. Entheogens And The Future Of Religion. San Francisco, CSP, 1997.

Humildemente traduzido por:
Waver

Versão copyleft – idéias não têm dono. Espalhe a palavra.

DMT - A Molécula do Espírito

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DMT significa dimetiltriptamina, uma família de compostos análogos à serotonina sintetizados por diversas plantas e animais, incluindo mamíferos e humanos. Caso os nossos níveis endógenos dessa substância se elevem acima do nosso patamar comum nesse instante, seja por causa experiências de quase-morte, aparições de natureza sobrenatural, religiosa, ou por ingestão intencional da substância em dose suficiente seja por meio da ayahuasca, do yopo, do psilocybe, do Bufo Alvarius, do extrato puro, duas coisas passam a acontecer: comunicação com entidades percebidas como externas, capazes de articular informações antes tidas como desconhecidas, identificadas através dos tempos como pessoas que já se foram, divindades diversas, alienígenas ou partes inconscientes da mente tornadas manifestas, a depender do contexto cultural; manifestação da sintaxe de nossa linguagem como um elemento visual através da transformação da fala em um instrumento capaz de criar, através do som de nossa voz, objetos ambíguos e portanto impossíveis em nossa atual percepção tridimensional: corpos que representam mais de uma forma ao mesmo tempo, trazendo para o domínio da visão as aptidões da comunicação oral para o duplo sentido.

Em nosso mundo não há consenso sobre a natureza dessas entidades nem sobre as transformações sintáticas das quais elas participam, em grande parte devido a nossa hostilidade frente a presença da dimetiltriptamina. Hipotetiza-se que a DMT tenha papel importante nos sonhos: e não seriam eles formas diminutas do ato fundamental dessa substância, a transformação de idéias em imagens concretas? Talvez nossos sonhos sejam um degrau na escalada dos níveis de DMT todas as noites, após o qual adentramos no universo das triptaminas do qual nunca conseguimos nos lembrar. E de maneira a ratificar essa hipótese, há a exceção de pessoas que já utilizaram a substância e relatam lembranças de sonhos onde ocorreu uma experiência de estar nesse mundo.

Enquanto a DMT unifica os sentidos da visão e audição ao permitir que ocorra uma comunicação visual que incorpore os elementos ambíguos do mundo aural, a escrita elimina da comunicação elementos da fala e separa os sentidos em dois universos distintos ao reduzir as palavras a seus elementos básicos, despidos de tons e variações pessoais. Sociedades que incorporam triptaminas como parte integral de sua cultura expressam a crença em espíritos naturais que controlam os ritmos dos rios e das prósperas florestas; sociedades que criaram a escrita nos cenários áridos e por vezes desérticos de seus vales julgam-se capazes de controlar, por meio de sua invenção, os ritmos de seus cenários inóspitos através da agricultura, das cidades e suas estruturas sociais. O impulso de controle da mente sobre a matéria conforme compreendido pela escrita mais se exarcerbou na civilização ocidental, onde o alfabeto, favorecido pelas condições extremas do Mediterrâneo, separou os sentidos como nenhum outro sistema de escrita. Essa separação se exarcebou a níveis inéditos com a invenção do livro impresso, e mais tarde com a Revolução Industrial que possibilitou sua reprodução em massa: caracteres uniformes que divulgavam uma separação entre os sentidos com um envolvimento muito menor do que a escrita à mão.

Antes da invenção da escrita, a humanidade vivia em uma relação de simbiose com a 4-HO-DMT; após a sua invenção, a DMT foi relegada ao papel de mistério, um segredo de grupos restritos durante a Antiguidade, para então assumir uma posição de substância obscura ou até mesmo desconhecida durante a Idade Média, reemergindo durante os Descobrimentos guiados pelo livro impresso como heresia, transformando-se com o progresso das novas mídias elétricas dos século vinte e seguinte em uma substância mais aceita a medida que nossas tecnologias convergem em direção aos cenários apresentados pelas triptaminas: já foram formuladas várias teses do espaço virtual como um sonho, algo que assim como a experiência da DMT captura os rígidos alicerces da realidade e os transforma em uma sintaxe livre onde há irrestrita transformação pelas forças imaginativas.

O Ocidente, do auge de sua sofisticação tecnológica, marcha na direção de reviver os modos de percepção dos mais primitivos estágios da humanidade, hoje encontrados somente em remotas tribos e grupos urbanos por poucos conhecidos. Se a DMT de fato produz os sonhos, a metáfora de um adormecer soa perfeita. Já virtualmente sonolentos caminhamos para o lugar onde estávamos: em 21/12/12 às 11:11 UTC, no início da noite do 13º b'ak'tun, encontramos a nossa triptaminada cama pré-histórica, onde se deixarão conhecer os mistérios subconscientes antes tornados sombrios pela luz do dia.
Link do Vídeo Dividido em 5 Partes Sobre o DMT:
http://www.youtube.com/watch?v=67Say7G7CPM&feature=related



Notas:

"TM: I really haven't had experiences with lucid dreaming. It's one of those things that I'm very interested in. I'm sort of skeptical of it. I hope it's true, because what a wonderful thing that would be.

HT: You've never had one?

TM: I've had lucid dreams, but I have no technique for repeating them on demand. The dream state is possibly anticipating this cultural frontier that we're moving toward. That we're moving toward something very much like eternal dreaming, going into the imagination, and staying there, and that would be like a lucid dream that knew no end, but what a tight, simple solution. One of the things that interests me about dreams is this -- I have dreams in which I smoke DMT, and it works. To me that's extremely interesting, because it seems to imply that one does not have to smoke DMT to have the experience. You only have to convince your brain that you have done this, and it then delivers this staggering altered state." (TERENCE MCKENNA)

"The elves were dancing in and out of the multidimensional visible language matrix, "waving" their "arms" and "limbs/hands/fingers?" and "smiling" or "laughing," although I saw no faces as such. The elves were "telling" me (or I was understanding them to say) that I had seen them before, in early childhood. Memories were flooding back of seeing the elves: they looked just like they do now: evershifting, folding, multidimensional, multicolored (what colors!), always laughing, weaving/waving, showing me things, showing me the visible language they are created/creatures of, teaching me to speak and read. (Are they are linguistic programs made manifest and personified? This throws an entirely new light on Terence McKenna's remark at Esalen about language being the "most alien artifact" we have!)" (GRACIE & ZARKOV )

"I finally relaxed, enjoying the inevitability of it all. instantly, flowers looking like opium poppies surrounded me and the 'machine-elves' of DMT fame came to visit. They assured me that I was safe, and really a nice guy to boot. In their high pitched collective voice, they sang a song revealing to me not only my own nature, but that of all creatures as well. They assured me that my DNA was not only similar to their own, but part of as well as *encompassing* their own 'code'. They stressed the simultaneousness of this seemingly contradictory statement. I started to laugh out loud, mostly at the absurdity of it all. My laughing became uncontrollable. It should be added that at this point I was so immersed that it did not matter if my eyes were open or closed. However, this laughing was the first event in what seemed like months which reminded me of my personal form and body. And I laughed... I could not stop!

The laughing at one point 'locked on' to a particular vocal frequency, and I could not get it to budge. Indeed, I was aware that I was releasing a monotonal hum. Even breathing did not seem to interfere with its clarity. I found it satisfying, and started to explore. By going with the sound, instead of trying to stop it, it grew louder and louder. Eventually it culminated in what McKenna correctly describes as a metallic buzzing sound. Very much like the sound of a cicada, but with many other elements added. I did feel as a bug making the sound, and I had an intuitive understanding of metamorphosis. As this sound continued, I noticed it was affecting my visions. Before, the elves were rapidly and almost violently competing for my attention, each trying to show me a better toy than the last. But this incredible sound caused them to order themselves into intricate yet subtle patterns of the greatest coherency. By slightly altering the pitch of the growl, or modulating it, the patterns changed. After some time, I could actually sculpt three dimensional objects. I did not attempt to make a chair, or a dog, or anything like that, but rather sculptures of pure light and revolving spheres, towers of emerald surrounded by throbbing orbs of sound and love. These were the toys I presented back to the machine-elves. This ability continued for what I would (with no way of ever knowing) say was roughly a half hour. This was the most satisfying, absurd, and enjoyable feeling I have ever had in my life. All frustrations associated with inability to express myself were flattened. It was as if I were vomiting my soul right into the air, where it loved to dance and play.

So now I am left with a ridiculous set of goals in life. I have done this again with another person who claimed the ability, and indeed the visions are seen by both parties. Like mental sex of untold richness. The possibilities of this 'language' with no danger of misinterpretation are so staggering I can't conceive of pursuing any other future for us monkies. To my amazement, and despite my wide sampling of the psychedelic community across the U.S., this phenomenon is almost unknown. I don't know what triggers it, only that if I eat enough mushrooms it will come. Strangely, I have not been able to have much success with the vocalizations on DMT, where this supposedly manifests itself more readily. " ( MANTUS, "A True Hallucination" , erowid.org DMT Vaults )

Nam mihi cum multa eximia divinaque videntur Athenae tuae peperisse atque in vitam hominum attulisse, tum nihil meilus illis mysteriis, quibus ex agresti immanique vita exculti ad humanitatem et mitigati sumus, initiaque ut appellantur ita re vera principia vitae cognovimus, neque solum cum laetitia vivendi rationem accepimus, sed etiam cum spe meliore moriendi. ( CICERO, De Legibus ) [ http://iamrcr.posterous.com/answering-frances-yates ]

Terapia para mendingos usará ayahuasca. O ESTADO DE SÃO PAULO/SP

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Projeto de psiquiatra tem por objetivo recuperar dependentes de drogas e conseguir a reintegração social

Uma nova e polêmica experiência com o chá de ayahuasca, a conhecida bebida ingerida pelos adeptos da seita do Santo Daime, está prestes a ser iniciada em São Paulo. o psiquiatra e ex-mestre da União do Vegetal Wilson Gonzaga da Costa pretende oferecer a droga psicoativa a moradores de rua para tratamento de dependências e reintegração à sociedade. "Queremos proporcionar a recuperação mental e espiritual", afirma Costa.

O psiquiatra começou a envolver-se com moradores de rua há mais de um ano. No início, porém, limitava-se a distribuir sopa para um grupo no Largo Santa Seca, região central da capital. Há três meses, surgiu a idéia de dar o chá de ayahuasca como forma de tratamento. "A missão me foi dada pela força, em um dia que estava sob o efeito do chá", revela.

Costa garante que não tem a intenção de montar uma nova seita. "Estou apenas cumprindo minha missão", diz. Ex-integrante do Conselho Federal de Entorpecentes, o psiquiatra vai enfrentar uma intensa oposição. "Vou fazer de tudo para evitar que esse abuso se concretize", afirma o coordenador da Unidade de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira. "Isso é uma loucura", completa.

Laranjeira observa que a pesquisa vai usar uma população carente como alvo. "Muitos apresentam danos cerebrais, provocados pelo abuso de drogas", comenta. "Não há estudos sobre os efeitos do chá em pessoas tão vulneráveis." Para ele, há muitas outras formas de tentar ajudar moradores de rua. "Oferecer uma droga que pode piorar ainda mais a situação do grupo é, no mínimo, uma temeridade", diz. "O mais grave é que o psiquiatra está lidando com uma população muito carente, desorganizada, que é fácil manipular", completa.

Costa toma a bebida há 18 anos e está confiante. Ele explica por que a ayahuasca pode ter efeito benéfico em pessoas dependentes de drogas: "Ela provoca um estado alterado de consciência que pode levar o indivíduo a perceber seus conflitos mais íntimos." O psiquiatra diz que é como se o Daime desencadeasse uma auto-análise "muito intensa e produtiva". Mas ele mesmo admite que o uso tem de ser controlado. Pessoas com esquizofrenia ou com quadros intensos de paranóia não devem usar de forma nenhuma a substancia", diz. Há outra restrição: a droga deve ser usada apenas em rituais, para evitar que a experiência possa desencadear uma psicose. "Por essa razão, o chá será tomado sempre em um local fechado, seguindo os preceitos aprendidos por mim na União do Vegetal."

Experiência - Além da inspiração da "forca", Costa afirma ter obtido sucesso com a primeira experiência, feita há cerca de um mês. O chá foi oferecido ao mecânico desempregado e morador de rua Humberto, de 48 anos.

O psiquiatra explica por que escolheu Humberto: "Durante nossa convivência, ele deu várias demonstrações de que gostaria de mudar", afirma o psiquiatra. "Humberto vinha bêbado ou sob o efeito do craque, mas disposto a sair da rua", relata o psiquiatra. 

Costa deu emprego e roupas ao mecânico. Depois de um tempo, ofereceu o chá. "Ele disse que a ayahuasca daria uma sensação de bem-estar, paz e resolvi experimentar", lembra Humberto. O mecânico, porém, não consegue relatar qual o efeito provocado. "Fiquei bem na hora e nos dias seguintes: sinto confiança e uma força que não sei de onde vem", descreve. Segundo ele, desde então, não voltou a usar craque. "É difícil, mas estou conseguindo.''

Humberto garante que mudou depois de se dar conta de todo o processo de destruição pelo qual passou. "Há alguns anos, tinha uma família e uma casa cheia de eletrodomésticos", afirma. Como tantos outros viciados, depois de começar a fumar craque, o mecânico vendeu tudo, até mesmo o botijão de gás. "Fiquei maltrapilho, mas agora tenho o prazer de poder entrar em um ônibus e sentar normalmente ao lado de outro passageiro."

O tempo de abstinência ainda é curto para dizer se Humberto está livre de recaídas. Mesmo que a melhora seja constatada, Costa admite que outros fatores podem ter contribuído. "Demos a ele emprego, um grupo de referência e o valorizamos." Mesmo ainda sem parâmetros certos, a experiência vai continuar. "Estamos dando o chá à nossa equipe e, em uma segunda etapa, queremos preparar os próprios moradores para oferecer assistência ao grupo."

Resultados de estudos são controvertidos

Idéia é comprovar influência sobre o abandono do álcool

Os efeitos terapêuticos da ayahuasca estão sendo investigados por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Os estudos, que em nada se relacionam com a experiência do médico Wilson Gonzaga Costa, apresentam resultados surpreendente e, ao mesmo tempo, controvertidos.

O psiquiatra Eliseu Labigalini Júnior apresentará no próximo mês sua tese sobre o uso da ayahuasca por ex-dependentes de álcool. Em 1993, pesquisadores de vários centros fizeram uma investigação em uma comunidade da União do Vegetal (UDV), na Amazônia. Durante o estudo, foram realizados testes e entrevistas com 15 integrantes da seita, que tomavam o chá havia mais de dez anos. o mesmo foi feito com um grupo de controle. ''Verificamos que 11 dos integrantes da seita tinham uma história de uso moderado e severo de álcool, antes de ingressar na UDV", conta Labigalini Júnior.

Pouco tempo depois de entrarem na seita, o consumo foi abandonado. "Muitos diziam perceber, durante o estado alterado de consciência, que estavam trilhando um caminho que inevitavelmente os levaria à ruína, a menos que mudassem radicalmente de conduta", revela.

Ex-dependentes - As fortes experiências fizeram com que, aos poucos, o álcool fosse deixado de lado. "Fiquei curioso com esse resultado e, por isso, resolvi estudar novamente o assunto", explica Labigalini Júnior.

Em sua tese, o psiquiatra acompanhou os casos de quatro ex-dependentes de álcool. A exemplo do que ocorreu com integrantes da UDV no Amazonas, todos abandonaram o vício depois de entrar na seita. "Eles não trocaram uma dependência por outra", garante Labigalini Júnior. Segundo ele, até hoje não há nenhum estudo que comprove que o chá vicia.

De acordo com os relatos colhidos pelo psiquiatra, o estado provocado pelo chá permite o contato com todos os níveis de consciência - o chamado self.

Mas Labigalini Júnior reconhece que a ayahuasca apresenta alguns riscos. "O uso do alucinógeno tem de ser feito dentro de um contexto ritualizado", afirma. Caso contrário, há a possibilidade de o chá acarretar crises psicóticas. "A ayahuasca provoca uma espécie de ruptura das barreiras do Consciente", diz. "O ritual funciona como um limite protetor."

Todos os entrevistados ressaltaram que experiências com o chá trouxeram mudanças importantes. "Eles se deram conta do processo que estabeleceu a dependência do álcool", afirma.

Em todas as entrevistas, também há referências constantes sobre a sensação da presença de Deus. "As modificações no comportamento ocorreram lenta mente e por meio de uma tentativa concreta de mudança de hábitos."

Para o diretor do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Arthur Guerra de Andrade, o estudo de Labigalini Júnior é "ingênuo". "Em vez de fazer entrevistas, ele deveria indicar a um grupo o uso da ayahuasca e, a outro, um tratamento com drogas convencionais."

O coordenador da Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp, Ronaldo Laranjeira, é ainda mais crítico: "Todos sabemos que a religião em muitos casos faz com que o dependente deixe de usar a bebida", afirma.

Mas Labigalini Júnior se defende. "Em muitos casos, o que ocorre é que o dependente apenas transfere o objeto da compulsão", observa. "Ele deixa o álcool e torna-se um fanático religioso", completa.

O psiquiatra afirma que esse comportamento não foi constatado entre os integrantes da UDV. "Ficou claro que, com a transformação provocada pela ayahuasca, a causa da compulsão foi sanada." (L.F.)

Pesquisa investiga efeitos sobre sistema emocional

Psiquiatra da Unifesp usa colegas como cobaias em estudo iniciado há 8 meses

A forma como a ayahuasca interfere no sistema emocional está sendo detalhadamente acompanhada em uma pesquisa desenvolvida há oito meses pelo psiquiatra da Unifesp, Lúcio Rodrigues. Para fazer o estudo, ele conta com a colaboração de colegas que nunca haviam tomado o chá. Eles concordaram em participar, cada um, de três rituais e contar a experiência ao pesquisador.

"A primeira entrevista eu não levo em consideração, pois geralmente o ritual inicial vem acompanhado de grande expectativa", diz Rodrigues. Em entrevistas minuciosas, o psiquiatra pretende detectar o processo desencadeado pelo chá.

De acordo com o resultado obtido, o uso terapêutico da droga poderá ser pesquisado com maior profundidade. "A ação das substâncias alteradoras do estado de consciência sempre foi alvo de pesquisas sérias", diz o psiquiatra. "No entanto, depois da década de 60, quando as drogas começaram a ser usadas fora de rituais, houve banimento e grande preconceito."

Rodrigues lamenta o retrocesso. "Esse tipo de substancia talvez possa ajudar pessoas a entrar em estado de profundo auto-conhecimento", diz. O grande erro, no entanto, é usá-la fora do contexto ritual. "Sabemos que, quando usadas em seitas, as chances de ocorrerem surtos psicóticos são reduzidas praticamente a zero."

A exemplo do que constata o psiquiatra Eliseu Labigalini, também da Unifesp, Rodrigues acredita que o chá possa ser um instrumento de ajuda para contornar problemas graves como dependências. Para ele, o termo drogas alucinógenas - classe em que está incluída a ayahuasca - não é correto. "A expressão passa a idéia, incorreta, de que a substância provoca a deturpação da realidade." Há uma corrente que usa o termo enteógenas - que provoca um conhecimento do deus interior. "Não é necessariamente uma referência ao místico, mas à totalidade da consciência."

A pesquisa de Rodrigues pode ainda constatar como se comportam, ao tomar o chá, pessoas sem identidade religiosa. "Pelos relatos feitos por integrantes da seita, percebemos que a ayahuasca desencadeia um processo em que todos os níveis de consciência afloram." Um efeito que poderia ser obtido em um processo longo de análise. "Precisamos saber se o mesmo ocorre com quem toma o chá nos rituais, mas não se identifica totalmente com os preceitos das seitas." (L.F.)

Droga é ligada a rituais

A ayahuasca já fazia parte das celebrações indígenas antes da colonização

Os índios chamam-na de vinho da alma e vinho dos mortos. Em comunidades mestiças, ela é conhecida por Daime, caapi, pinde. Feita da combinação de um cipó e de uma planta chamada, chacrona ou rainha, a ayahuasca sempre esteve vinculada a rituais religiosos. Antes mesmo da colonização européia, tribos incluíam o chá nas celebrações. Atualmente, ela é usada em cerca de 20 seitas, que reúnem 10 mil seguidores.

A mais conhecida é a do Santo Daime, fundada na década de 20 pelo agricultor Irineu Serra. Os adeptos das seitas reúnem-se duas vezes por mês em rituais em que bebem o chá, cantam hinos que misturam temas de catolicismo e espiritismo e dançam. Na União do Vegetal (UDV), criada na década de 50, a música com temas religiosos também está presente.

O psiquiatra da Unifesp, Lúcio Rodrigues, explica que a rainha contém dimetiltriptamina (DMT), substância com efeitos antidepressivos, geralmente decomposta por via oral. Desde 1961, a DMT, em, sua forma sintética, é banida para uso humano pelo International Narcotics Control Board, órgão da Organização das Nações Unidos (ONU). No Brasil, o uso do chá é permitido pelo Conselho Federal de Entorpecentes, mas com restrições. A ayahuasca somente é liberada para uso religioso. Crianças, mesmo que acompanhadas por pais, não devem ingerir o chá. (L.F.)




Fonte: Departamento de comunicação e Marketing Institucional _Universidade Federal de São Paulo.

Ayahuasca: Uma História Etnofarmacológica

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por Dennis J. McKenna, ph.D.
INTRODUÇÃO
Das inúmeras plantas alucinógenas utilizadas pelas populações indígenas da Bacia Amazônica, talvez nenhuma delas seja tão interessante ou complexa -no sentido botânico, químico ou etnográfico -como a beberagem denominada por muitos ayahuasca, caapi ou yagé. Ela é mais conhecida como ayahuasca, termo da língua quéchua que significa “cipó das almas” e que tanto é aplicado para a beberagem como para uma das plantas básicas utilizadas na sua preparação, ou seja, um cipó malpighiáceo da floresta, cujo nome científico é Banisteriopsis caapi (Schultes, 1957). No Brasil, a transliteração desta palavra quéchua para o português resultou no termo hoasca. A ayahuasca, ou hoasca, ocupa uma posição central na etnomedicina mestiça, de tal maneira que a natureza química dos seus constituintes ativos e  sua forma de uso tornam seu estudo relevante para os temas contemporâneos da neurofarmacologia, da neurofisiologia e da psiquiatria.
O QUE É A AYAHUASCA?
No contexto tradicional, a ayahuasca é uma beberagem preparada através da fervura ou infusão das cascas e ramos da Banisteriopsis caapi junto à mistura de outras plantas. E, entre estas, o espécime mais comumente empregado é a rubiácea do gênero Psychotria, especialmente a P. Viridis, cujas folhas contêm os alcalóides necessários para o efeito psicoativo. A ayahuasca é o único preparado cuja atividade farmacológica depende de uma interação sinérgica entre os alcalóides ativos de suas plantas. Um dos seus componentes, a casca da Banisteriopsis caapi, contém alcalóides Beta-carbolinas, potentes inibidores MAO. Quanto aos outros componentes, as folhas da Psichotria viridis ou de outros espécimes semelhantes, contêm o potente agente psicoativo N,N-dimetiltriptamina (DMT). Por si só, o DMT não é oralmente ativo quando ingerido; no entanto, poderá se tornar oralmente ativo em presença de um inibidor MAO periférico, e esta interação é justamente a base da ação psicotrópica da ayahuasca (McKenna, Towers, & Abbott, 1984).
Segundo ainda outros relatos (Schultes, 1972), existem alguns espécimes do gênero Psichotria utilizados de maneira similar em outras regiões da Amazônia. No nordeste da Amazônia, por exemplo, particularmente no Putumayo colombiano e no Equador, as folhas da Diplopterys cabrerana, um cipó da selva que pertence à mesma família da Banisteriopsis, são adicionadas à beberagem em lugar das folhas da Psychotria. O alcalóide presente na Diplopterys é idêntico ao dos espécimes da Psychotria, tendo, portanto, efeito farmacológico similar ao destes últimos. No Peru, além da Psychotria e da Diplopterys, diversos outros espécimes são freqüentemente adicionados, e sua escolha depende dos propósitos mágicos, medicinais ou religiosos pelos quais a droga será consumida.
Embora seja utilizada ocasionalmente uma farmacopéia virtual de outros espécimes, as misturas mais comumente empregadas (além da Psychotria componente constante do preparado em questão) encontram-se entre os vários gêneros de solanáceas; incluindo o tabaco (Nicotiana sp.), a Brugmansia sp., e a Brunfelsia sp. (Schultes, 1972; McKenna, 1995). Tais gêneros solanáceos são conhecidos por conter alcalóides como a nicotina, a escopolamina e a atropina, que afetam tanto a adrenérgica central e periférica como a neurotransmissão colinérgica. Mas as interações destes agentes com os combatentes serotoninérgicos e os inibidores MAO ainda são essencialmente desconhecidas na medicina moderna.
UM FOCO NA PERSPECTIVA HISTÓRICA ATUAL
Neste artigo, apresentamos uma breve abordagem sobre a história das investigações etnofarmacológicas da ayahuasca, justamente porque esta beberagem vem sendo um tópico fascinante para etnógrafos, botânicos, químicos e farmacêuticos desde que se tornou conhecida na metade do século XIX. Apenas para efeito expositivo, a história da etnofarmacologia da ayahuasca poderá ser dividida em diversos segmentos, começando pelas suas origens préhistóricas até chegar no presente, pois esta beberagem ainda constitui uma área ativa de pesquisa. A história moderna da ayahuasca pode ser datada a partir da metade do século XIX; embora nosso foco seja lançado sobre seu percurso etnofarmacológico, cumpre observar que sua singularidade vem causando historicamente uma série de impactos, não só na religião, na política e na sociedade em geral como também na ciência (um exemplo: a aceitação, por parte do governo brasileiro, da legitimidade do uso sacramental do chá de ayahuasca pela UDV e outras seitas sincréticas do Brasil). As implicações e conseqüências do uso continuado e crescente desta beberagem podem ser visíveis em vários níveis do presente e também do futuro.

RAÍZES PRÉ-HISTÓRICAS DA AYAHUASCA
As origens do uso da ayahuasca na bacia amazônica estão perdidas por entre as névoas da pré-história. Ninguém pode afirmar com certeza onde se deu o início desta prática, embora se possa dizer com alguma certeza que sua utilização disseminou-se por inúmeras tribos indígenas da bacia amazônica, e que ela acabou chamando a atenção dos etnógrafos ocidentais na metade do século XIX. Este fato atesta a antigüidade, apesar do mínimo conhecimento que se tem a respeito. O etnógrafo equatoriano Plutarco Naranjo sumariou a pouca informação disponível sobre a pré-história da ayahuasca (Naranjo, 1979, 1986). Existem evidências arqueológicas abundantes -vasos de cerâmica, estatuetas antropomórficas, e outros artefatos -de que o uso desta planta alucinógena se estabeleceu na Amazônia Equatoriana por volta de 1.500-2.000 a.C.
Infelizmente, a maior parte das evidências científicas -pós vegetais, bandejas para inalação e cachimbos -está relacionada com o uso de outras plantas psicoativas como a coca, o tabaco, o pó alucinógeno derivado dos espécimes da Anadenanthera conhecido como “vilka”, e várias outras, e não com a ayahuasca. Não existe nada sob a forma de material iconográfico, nem mesmo remanescentes botânicos que tenham sido preservados, que possa estabelecer o uso pré-histórico da ayahuasca; é provável que as culturas pré-colombianas, sofisticadas na utilização de grande variedade de plantas psicotrópicas, tenham tido uma relação familiar com a ayahuasca e seu preparo. A falta de datas nesta matéria é frustrante, particularmente no que diz respeito à questão que tem fascinado os etnofarmacólogos desde os anos 1960, quando sua importância veio à baila, através da obra de Richard Schultes e seus discípulos.
cipó banisteriopsis caapiComo mencionado acima, a ayahuasca tem uma posição especial entre as plantas alucinógenas, pois é preparada com a combinação de duas plantas: as cascas ou os ramos dos espécimes Banisteriopsis junto às folhas dos espécimes Psychotria, ou com outras misturas contendo DMT. A beberagem depende desta combinação singular para desencadear sua atividade. Existe a probabilidade de ter sido um acidente a descoberta da síntese dessas duas plantas como um preparado ativo. Nenhuma das duas é particularmente ativa quando sozinha; contudo, sabemos que esta unificação fortuita ocorreu em algum ponto da pré-história, ou seja, a ayahuasca foi “inventada” naquela época.
psychotria viridisMesmo que jamais venhamos a saber como ocorreu esta descoberta e quem foi o responsável, existem diversos mitos fascinantes sobre o tema. Os ayahuasqueiros do Peru nos dirão que o conhecimento deles vem diretamente das “plantas mestres” (Luna, 1984), ao passo que os mestres do culto sincrético brasileiro da UDV nos dirão com a mesma convicção que este saber é oriundo do “primeiro cientista”, o rei Salomão, que teria recebido toda a tecnologia de um rei inca por ocasião de uma visita, pouco divulgada, que ele fizera ao Novo Mundo na antigüidade. Na falta de datas, estas são as únicas tentativas de explicação; tudo o que podemos afirmar com segurança é que o conhecimento das técnicas de preparação da ayahuasca, e também das plantas que lhe são apropriadas, já estava difundido na Amazônia quando seu uso chamou a atenção de algum pesquisador moderno.
A DESCOBERTA CIENTÍFICA DA AYAHUASCA NO SÉCULO XIX
Talvez a pré-história arqueológica da ayahuasca permaneça pelo resto do tempo intrinsecamente ligada aos mitos, a menos que seja descoberto algum artefato que nos capacite a estabelecer a época do seu uso.
Por outro lado, a precisão é bem maior quanto à história moderna ou científica da ayahuasca. Sua origem deu-se em 1851, quando célebre botânico inglês Richard Spruce deparou-se com a utilização de uma beberagem intoxicante entre os índios da tribo Tucano do rio Uaupés, no Brasil (Schultes, 1982). Spruce coletou espécimes floridos do grande cipó usado como fonte da beberagem, e esta coleta deu a base para sua classificação de plantas tais como a Banisteria caapi; mais tarde, em 1931, esta planta foi reclassificada como Banisteriopsis caapi pelo taxiólogo Morton, como parte de sua revisão dos conceitos genéricos no interior da família das Malpighiáceas.
Sete anos depois, Spruce encontrou o mesmo cipó sendo usado pelos índios Guahibo no alto Orinoco da Colômbia e da Venezuela; no final daquele mesmo ano, este botânico descobriu que os índios da tribo Záparo dos Andes do Peru tomavam uma beberagem narcótica preparada com a mesma planta, e que eles a chamavam de ayahuasca. Embora o achado de Spruce anteceda qualquer outra narrativa publicada, suas descobertas só vieram a público em 1873, quando foram mencionadas numa narrativa popular que descrevia suas explorações na Amazônia (Spruce, 1873). A exposição completa só pôde aparecer em 1908, quando Spruce publicou seu relato na antologia de A. R. Wallace, Notes of a Botaniston the Amazon and Andes (Spruce, 1908). O crédito pelos primeiros estudos sobre o uso da ayahuasca pertence ao geógrafo equatoriano Manuel Villavicencio que, em 1858, escreveu a respeito de sua utilização na feitiçaria e na divinação do alto do rio Napo (Villavicencio, 1858). Apesar de Villavicencio não ter fornecido detalhes botânicos sobre a planta aí empregada, o relato de sua auto-intoxicação não deixou dúvida em Spruce de que ambos escreviam sobre a mesma coisa.
No decorrer das últimas décadas do século XIX, outros etnógrafos e exploradores continuaram relatando seus encontros com uma beberagem intoxicante, usada por inúmeras tribos indígenas da Amazônia, e que era preparada a partir das “raízes” (Crévaux, 1883), de “diversos arbustos” (Koch-Grünberg, 1909), ou de “cipós” de proveniência botânica incerta (Rivet, 1905). Ao contrário de Spruce, que teve a brilhante idéia de coletar provas dos espécimes botânicos e dos materiais designados para eventuais análises químicas, os investigadores que o seguiram não colheram os espécimes das plantas observadas por eles, e seus relatos são considerados de pouca importância histórica. A publicação de Simson (1886) sobre a utilização da ayahuasca entre os índios equatorianos constitui uma notável exceção.
Nela, o autor nos conta que “os indígenas bebem uma mistura que reúne o yagé, as folhas de sameruja e o pau de guanto, e este amálgama resulta na ayahuasca, um deleite geralmente obtido da fervura destes componentes”. Nenhum destes ingredientes foi identificado, assim como não foram coletadas provas deles, embora este relato tenha estabelecido uma das primeiras indicações de que outros espécimes também eram empregados na preparação da ayahuasca.
Apesar de Richard Spruce e outros exploradores da Amazônia terem se dedicado aos primeiros estudos da ayahuasca desde 1851, a base de sua pesquisa só foi estabelecida com o importante trabalho sobre a sua química, realizado na segunda década do século XX. O século XIX testemunhou o nascimento de vários produtos químicos naturais, começando pelo isolamento da morfina, oriunda do ópio das papoulas, trabalho realizado em 1803 pelo farmacêutico alemão Sertüner.
O grande número de produtos naturais, isolados pela primeira vez naquele período, era de alcalóides, provavelmente porque estes constituem algumas bases relativamente fáceis de serem isoladas, e as plantas que os contêm possuem atributos medicinais importantes, cujas propriedades farmacológicas óbvias são freqüentemente dramatizadas. Foi durante este período efervescente de descobertas dos alcalóides que o químico H. Gõbel isolou a harmalina, a partir das sementes da Arruda Síria, Peganum harmala. Seis anos mais tarde, em 1847, a harmina foi isolada destas sementes pelo seu colega J. Fritsch. Cinqüenta e poucos anos mais tarde, em 1901, Fisher isolou um terceiro alcalóide -o harmalol –das sementes da Arruda Síria.
Tal como as outras Beta-carbolinas, que depois serviram de base para a nomeação do epíteto Peganum harmala, a harmina mostrou-se mais tarde idêntica à maioria das Beta-carbolinas encontradas na Banisteriopsis caapi. A definição mais precisa para a equivalência existente entre a Beta-carbolina da ayahuasca e a harmina da Arruda Síria foi estabelecida nos anos 1920, depois da harmina ter sido isolada de maneira independente por diversos investigadores e recebido uma variedade de nomes. No final do século XIX, em 1895, ocorreu um evento significativo para a história científica da ayahuasca: deram-se as primeiras investigações dos efeitos da harmina sobre o sistema nervoso central, realizadas em animais, por Tappeiner; os resultados iniciais foram seguidos mais sistematicamente por Gunn, em 1909, que demonstrou que seus efeitos mais intensos advinham da estimulação motora do sistema nervoso central com tremores e convulsões, seguida ou acompanhada por paralisia geral e pulsação fraca (Gunn, 1935).
A AYAHUASCA NO INÍCIO DO SÉCULO XX (1900 -1950)
As primeiras décadas do século XX testemunharam a publicação detalhada dos relatos de Spruce a respeito de suas explorações amazônicas e suas observações sobre o uso da beberagem narcótica entre as diversas tribos com as quais estabeleceu contato. Apesar de já terem sido publicados antes alguns breves relatos de Spruce e outros investigadores sobre a ayahuasca, seu conhecimento mais palpável deu-se com a publicação da narrativa das viagens daquele pesquisador, no livro editado em 1908 por A. R. Wallace, naturalista célebre, além de codescobridor da teoria da evolução. Naquela narrativa, a beberagem foi retirada da obscuridade acadêmica, para vir à luz e despertar a atenção de outros pesquisadores mais sensíveis.
Neste período inicial do século XX, o progresso no entendimento da ayahuasca teve lugar em duas frentes principais: na taxionomia e na química. Apesar de algumas exceções notáveis, as investigações farmacológicas sobre as propriedades da ayuahuasca mantiveram-se relativamente aquietadas nesta mesma época.
Durante este período, a história botânica da ayahuasca resume-se à combinação surpreendente do excelente trabalho taxionômico com a atividade detetivesca realizada por alguns, junto a uma seqüência de erros notórios cometidos por outros. Em 1917, Safford afirmou sua certeza de que a ayahuasca e a beberagem conhecida como caapi eram idênticas e derivavam da mesma planta. Em 1921, o antropólogo francês Reinberg aumentou a confusão quando afirmou que a ayahuasca era um termo que se referia à Banisteriopsis caapi, mas que o yagé era preparado com uma planta da família apocinácea Haemadictyon amazonicum, hoje corretamente classificada como Prestonia amazonica. A persistência deste erro, que aparentemente teve origem na leitura equivocada e mal interpretada dos relatos de Spruce, se propagou por toda a literatura dedicada à ayahuasca ao longo dos 40 anos seguintes. Finalmente, a publicação de um estudo de Schultes e Raffauf refinou todo o equívoco desse tipo de identificação (Schultes e Raffauf, 1960), apesar de vez por outra ele ainda aparecer na literatura técnica.
Entre as investigações que ajudaram a clarear o entendimento taxionômico da botânica da ayahuasca devem ser mencionados os trabalhos realizados em 1922 por Rusby e White na Bolívia (White, 1922) e ainda a publicação de Morton, em 1930 das várias anotações feitas pelo botânico Klug no Putumayo colombiano. A partir das coleções de notas realizadas por Klug, Morton descreveu um novo espécime de Banisteriopsis -a B. inebriens -usado como alucinógeno; entretanto, ele também afirmou que pelo menos três espécimes, a B. caapi, a B. inebriens e a B. quitensis eram utilizadas de um modo similar, e que dois outros espécimes -a Banisteria longialata e a Banisteriopsis rusbyana podem ter sido usadas como misturas para a preparação. Curiosamente, os que mais se esforçaram para o esclarecimento da confusão taxionômica na identificação das plantas usadas na ayahuasca foram os dois químicos Chen e Chen (1939). Trabalhando no isolamento dos princípios ativos do yagé e da ayahuasca, eles sustentaram suas investigações com provas autênticas de espécimes botânicos (uma prática rara naquele tempo), e depois de uma profunda revisão em toda a literatura existente, concluíram que a caapi, o yagé e a ayahuasca eram nomes diferentes atribuídos à mesma beberagem, pois a planta que servia de base era a mesma: a Banisteriopsis caapi.
Embora o trabalho subseqüente, realizado nos anos 1950 por Schultes e outros, tenha estabelecido de vez que, além da B. caapi os espécimes malpighiáceos também estavam implicados na preparação da beberagem, não se deve desmerecer a contribuição de Chen e Chen, pois estes investigadores lançaram uma luz preciosa sobre a escuridão e confusão reinantes. O trabalho de campo posterior a eles tornou claro que as duas fontes botânicas da beberagem -conhecida pelos nomes de caapi, ayahuasca, yagé, natema e pinde -são as cascas dos troncos da B. caapi e da B. inebriens.
A primeira metade do século XX foi também o período das investigações químicas mais sérias sobre os princípios ativos da ayahuasca; como muitos dos trabalhos taxionômicos deram-se neste mesmo período, o progresso científico neste campo foi marcado pela confusão nas investigações realizadas simultaneamente por grupos distintos e independentes de investigadores. Mas aos poucos na medida em que estas investigações se ajustavam à literatura científica, a claridade começou a emergir daquele quadro sombrio.
Depois da harmina ter sido isolada das sementes da Peganum harmala pelo químico alemão Fritsch em 1847, um consenso científico posterior pôde finalmente estabelecê-la como o maior alcalóide Beta-carbolina dos espécimes Banisteriopsis. Esta identificação persistiu como inequívoca por muitas décadas até que, em 1905, um alcalóide denominado “telepatina” foi obtido de um material botânico não avalizado e chamado de “yagé” por Zerda e Bayón (citado em Perrot e Hamet, 1927). Em 1923, o químico colombiano Fischer Cardenas (1923) isolou novamente um alcalóide de materiais botânicos não confiáveis e também o chamou de telepatina; na mesma época, outra equipe colombiana, composta pelos químicos Barriga-Villalba e Albarracin (1925), isolou um alcalóide, a iageína. Talvez este tenha sido a harmina na sua forma impura; porém, a fórmula assinalada na época como o ponto de fusão mostrava-se inconsistente para uma estrutura de Beta-carbolina. E, para intensificar a confusão, o cipó com o qual Barriga-Villalba trabalhara tinha sido “identificado” como Prestonia amazonica, embora mais tarde ele mesmo tenha revisado esta identificação para Banisteriopsis caapi. Em todas estas instâncias, a falta de uma referência precisa dos espécimes botânicos deu origem a um trabalho de valor duvidoso.
A partir de 1926, este quadro foi melhorando até os anos 1950. Michaels e Clinquart (1926) isolaram um alcalóide de materiais improváveis, que chamaram de iageína. Logo depois, Perrot e Hamet (1927) isolaram uma substância que denominaram telepatina, sugerindo que esta era idêntica à iageína. Em 1928, Lewin isolou um alcalóide, nomeado por ele como banisterina; esta substância mostrou-se idêntica à harmina, que tinha sido previamente conhecida a partir da Arruda Síria pelos químicos da E. Merck & Cia (EIger, 1928; Wolfes e Rumpf, 1928). EIger trabalhou com materiais botânicos comprovados, identificados em Kew Gardens como Banisteriopsis caapi. Tendo como base seus próprios estudos com animais e ainda o estímulo de Lewin, em 1928 o farmacêutico Kurt Beringer usou as amostras de “banisterina’” doadas por Lewin, em um estudo clínico com 15 pacientes que sofriam de Parkinson pós-encefálico, e relatou efeitos espetacularmente positivos (Beringer, 1928). Esta foi a primeira vez que um inibidor MAO reversível teve o aval para o tratamento do mal de Parkinson, embora a atividade da harmina como um inibidor MAO reversível só tenha sido descoberta 30 anos mais tarde. O ocorrido também representa um dos poucos momentos nos quais uma droga alucinógena foi clinicamente avalizada para o tratamento de alguma doença (Sanches-Ramos, 1991).
Também trabalhando com materiais botânicos comprovados, supridos por Llewellyn Williams, do Chicago Field Museum, Chen e Chen (1939) confirmaram o trabalho de Elger, Wolfes e Rumpf; estes pesquisadores já tinham isolado a harmina dos galhos, raízes e folhas da B. caapi, e haviam também confirmado sua identidade com a banisterina isolada por Lewin. Em 1957, Hochstein e Paradies analisaram um material comprovado da ayahuasca, coletado no Peru, e dele isolaram a harmina, a harmalina, e a tetrahidroharmina. Nenhuma investigação dos elementos constitutivos de outros espécimes de Banisteriopsis foi realizada antes de 1953, data em que O’Connell e Lynn (1953) confirmaram a presença de harmina nos galhos e folhas de espécimes comprovados de B. inebriens, supridos por Schultes. Poisson (1965) confirmou posteriormente estes resultados, isolando a harmina e uma pequena quantidade de harmalina da “natema” peruana, identificada por Cuatrecasas como B. inebriens.
MEADOS DO SÉCULO XX (1950-1980)
A primeira metade do século XX foi o palco dos estudos científicos iniciais sobre a ayahuasca; neste período foram projetadas as primeiras luzes sobre as fontes botânicas deste curioso alucinógeno, com o objetivo de revelar seus constituintes ativos. Durante as três décadas que vão de 1950 a 1980, os estudos botânicos e químicos seguiram a passo acelerado, e as novas descobertas fundaram as bases para uma explanação mais clara das singulares ações farmacológicas da ayahuasca.
dimetiltriptaminaNo campo da química, as investigações de Hochstein e Paradies (1957) confirmaram e expandiram o trabalho anterior de Chen e Chen (1939), e outros. Os alcalóides ativos da Banisteriopsis caapi e de algumas espécimes semelhantes foram firmemente estabelecidos como sendo a harmina, a tetrahidroharmina e a harmalina. Contudo, só no final dos anos 1960 é que surgiram os primeiros estudos mais detalhados a respeito do uso de tais misturas na constituição do componente, se não invariável, pelo menos regular do preparado da ayahuasca (Pinkley, 1969). Logo tornou-se aparente que pelo menos duas destas misturas -a Banisteriopsis rusbyana (reclassificada por Bronwen Gates como Diplopterys cabrerana) e os espécimes da Psychotria, especialmente a P. viridis (Schultes, 1967) -eram adicionadas no preparado para “fortalecer e expandir” as visões. Ocorreu outra surpresa quando as frações dos alcalóides obtidos desses espécimes provaram ser o potente alucinógeno -embora oralmente inativo -N,N -dimetiltriptamina (DMT) (Der Marderosian e outros, 1968). Este componente foi conhecido por muitas décadas como sendo um resultado sintético, já que seguia-se à síntese inicial de Manske; mas, sua ocorrência no campo da natureza, bem como suas propriedades alucinógenas, já tinham vindo à baila alguns anos antes, quando Fish, Johnson e Horning (1955) isolaram seu reputado princípio ativo na Piptadenia peregrina (reclassificada mais tarde como Anadenanthera peregrina), a fonte do pó alucinógeno utilizado pelos indígenas do Caribe e também na bacia do Orinoco, na América do Sul.
A explicação farmacológica do final dos anos 1960 para a descoberta de Schultes, Pinkley e outros -segundo a qual a atividade da ayahuasca dependia de uma interação sinérgica entre as inibições-MAO das Beta-carbolinas da Banisteriopsis com a psicoativa, porém perifericamente inativa, triptamina DMT -já tinha sido fornecida em 1958 por Udenfriend e seus colaboradores (Udenfriend e outros, 1958).
Realizando seus trabalhos no Laboratório de Farmacologia Clínica do NIH, estes pesquisadores foram os primeiros a demonstrar que as Beta-carbolinas eram inibidores MAO potentes e reversíveis. Durante este mesmo período, o trabalho clínico com a DMT recentemente sintetizada e a auto-experimentação do psiquiatra e farmacólogo húngaro Stephen Szara (1957) conduziram à publicação dos primeiros estudos das ações profundas e passageiras dos alucinógenos nos seres humanos. Os experimentos de Szara também levaram ao primeiro reconhecimento de que este composto não era oralmente ativo, embora os mecanismos de sua inativação não fossem totalmente compreendidos. Ironicamente, algumas décadas mais tarde, Szara, o pioneiro da DMT, foi apontado como o cabeça do NIDA (Instituto Nacional do Abuso de Drogas).
Durante o célebre Verão do Amor em Haight-Ashbury, em 1967, realizou-se apenas um simpósio em São Francisco sob a tutela daquilo que na época era o Departamento Americano de Saúde, Educação e Bem-Estar. Sob o título de Busca Etnofarmacológica pelas Drogas Psicoativas -seu conteúdo foi publicado mais tarde pela gráfica oficial do governo com o título de “Publicação do Serviço de Saúde Americano nº 1.645″ (Efron e outros, 1967) -, esta conferência trouxe vários esclarecimentos ao campo emergente da etnofarmacologia psicodélica. Entre os seus participantes, encontravam-se o toxicólogo Bo Holmstedt do Karolinska lnstitute de Estocolmo; o etnobotânico Richard Evans Schultes; o químico Alexander Shulgin, que recebera recentemente seu título de doutorado; e Andrew Weil, pesquisador da maconha; além de muitos outros.
Era a primeira vez que se fazia uma conferência sobre a botânica, a química e a farmacologia dos psicodélicos, e, como era de se esperar, foi também a última, porque tal tipo de reunião não seria mais tutelada pelo governo. Mas, a conferência e a publicação deste foro, que se tornaram um marco da literatura psicodélica, revelaram ao mundo o estado em que se encontravam os estudos sobre a ayahuasca e seus aspectos multidisciplinares. O volume do simpósio incluiu capítulos sobre a química da ayahuasca (Deulofeu, 1967), a etnografia da sua preparação e dos seus usos (Taylor, 1967), e a psicofarmacologia humana das Betacarbolinas da ayahuasca (Naranjo, 1967). Mas, houve um comentário irônico sobre a escassez de conhecimentos daquela época a respeito da ayahuasca, segundo o qual os usos dos conteúdos de triptamina nas misturas, e sua ativação por intermédio dos inibidores-MAO, não vieram à discussão neste simpósio; a assunção que prevaleceu foi que a psicoatividade da ayahuasca era dada, mesmo que não inteiramente, em primeiro lugar pelas Beta-carbolinas.
Nos cinco anos que se seguiram a esta conferência, houve um progresso substancial com relação ao entendimento farmacológico e químico da ayahuasca. Schultes e os seus alunos Pinkley e Der Marderosian publicaram suas descobertas iniciais a respeito da DMT contida nas plantas que compunham o preparado (Der Marderosian e outros, 1968; Pinkley, 1969), estimulando a especulação de que a DMT -ativada oralmente pelas Beta-carbolinas -era a responsável por grande parte da ação da beberagem. Embora plausível, esta noção só pôde ser cientificamente comprovada na década seguinte.
Em 1972, Rivier e Lindgren (1972) publicaram um dos primeiros documentos interdisciplinares sobre a ayahuasca, relatando o perfil dos seus alcalóides e o das plantas que lhe servem de base, coletadas com o povo Shuar do alto rio Purus, no Peru. Na época, este documento era tido como um dos que melhor se dedicavam às investigações sobre a composição da ayahuasca e das plantas que lhe servem de base, porque todas tinham sido devidamente coletadas e comprovadas. Ali também se discutiam as numerosas plantas que poderiam compor este mesmo preparado, além dos espécimes Psichotria e Diplopterys, pois se fornecia pela primeira vez algumas evidências que indicavam a complexidade da tecnologia utilizada na sua mistura; na época, muitos outros espécimes eram usados como seus componentes.
Logo depois da metade dos anos 1970, uma equipe japonesa de fito químicos interessou-se pela química da Banisteriopsis, e relatou o isolamento de novas Beta-carbolinas e dos alcalóides pirrolidina, shihunina, e dihidroshihunina (Hashimoto e Kawanishi, 1975, 1976; Kawanishi e outros, 1982). A maioria das Beta-carbolinas relatadas não foi isolada de forma apurada, surgindo mais tarde a tese de que poderiam ser artefatos resultantes dos procedimentos do isolamento (McKenna e outros, 1984).
FINAL DO SÉCULO XX (1980 -PRESENTE)
Depois da publicação do documento de Rivier e Lindgren, no início dos anos 1970, não houve no resto desta década maiores progressos científicos. O trabalho de Rivier e Lindgren só obteve uma resposta satisfatória quando McKenna e outros (1984) publicaram os resultados das suas investigações químicas, etnobotânicas e farmacológicas sobre a ayahuasca e seus componentes, que se basearam em espécimes botânicos comprovados e nas amostras das beberagens usadas pelos ayahuasqueiros peruanos. Neste documento foi confirmada experimentalmente a teoria da atividade oral desta beberagem. A DMT mostrou-se como seu principal componente ativo, tomando-se oralmente ativa pela Beta carbolina mediada no bloqueio do MAO periférico.
As provas de algumas frações de ayahuasca dos sistemas MAO existentes no fígado dos ratos demonstraram que tais beberagens constituíam inibidores MAO extremamente potentes, inclusive quando diluídas em diferentes ordens de magnitude. Outra descoberta importante foi que os níveis dos alcalóides típicos, localizados na ayahuasca dos mestiços, excediam os níveis encontrados por Rivier e Lindgren na ayahuasca usada no alto do rio Purus, às vezes em uma ou mais ordens de magnitude. Baseados na conhecida farmacologia humana da DMT e das Beta-carbolinas, McKenna e seus colaboradores mostraram que uma dose típica (100 ml) da amostra da ayahuasca continha DMT o bastante para constituir uma dose ativa. Os investigadores sugeriram então que os baixos níveis de alcalóides encontrados nas amostras do povo Shuar, coletados por Rivier e Lindgren (1972), talvez tivessem resultado de diferentes métodos na preparação da bebida. A tribo Shuar tem o hábito de deixar a Banisteriopsis e as outras plantas de molho na água fria; eles não fervem a mistura nem reduzem o volume do extrato final, conforme geralmente se faz entre os mestiços. Tais fatores explicavam as discrepâncias na concentração dos alcalóides em dois estudos distintos, ou pelo menos forneciam uma explicação plausível para as diferenças.
A década de 1980 testemunhou também as primeiras contribuições do antropólogo Luis Eduardo Luna. Trabalhando entre os mestiços ayahuasqueiros nas proximidades das cidades de Iquitos e Pucallpa, no Peru, Luna foi o primeiro a chamar a atenção para a importância da dieta estrita, seguida pelos xamãs aprendizes, bem como para os usos específicos das plantas mais utilizadas na mistura (Luna, 1984a; 1984b; 1986). Ele também foi o primeiro a relatar o conceito de “plantas mestres” (plantas que ensinam), tal como muitas dessas plantas que compõem a mistura são vistas pelos ayahuasqueiros. Em 1986, McKenna, Luna e Towers publicaram a primeira tabulação compreensível dos espécimes utilizados nas misturas, juntamente com os elementos constitutivos de sua biodinâmica, assinalando que tais espécimes, relativamente pouco investigados, faziam parte de uma extensa farmacopéia popular, e que valeria a pena um exame minucioso de todos eles como possíveis fontes de novos agentes terapêuticos (McKenna e outros, 1995).
Em 1985, McKenna e Luna levaram a cabo seu trabalho de campo na Amazônia peruana, e foram os primeiros a discutir a possibilidade de se conduzir uma investigação biomédica da ayahuasca. A sólida saúde dos ayahuasqueiros, inclusive os de idade avançada, mostrou-se fora do comum, parecendo-lhe de extrema importância um estudo científico a respeito. Não eram poucos os desafios para um trabalho de tal ordem no Peru, pela dificuldade para coletar amostras de plasma. Os conceitos locais sobre a feitiçaria tornavam praticamente impossível que os ayahuasqueiros se submetessem a procedimentos médicos da coleta de amostras de sangue e urina. Mesmo tendo elaborado uma proposta preliminar para levar avante tal projeto, estes pesquisadores não conseguiram captar fundos e o estudo não se realizou.
Em 1991 contudo, surgiu no Brasil uma nova oportunidade para iniciar este estudo. McKenna e Luna estavam entre os diversos estrangeiros convidados para participar de uma conferência em São Paulo, organizada pelo setor dos Estudos Médicos da União do Vegetal (UDV), uma religião sincrética brasileira que faz uso da ayahuasca nas suas cerimônias. Embora, até então, as autoridades regimentais brasileiras tivessem dado permissão para a utilização da ayahuasca no contexto ritual de alguns grupos (pouco importando os nomes que lhes eram atribuídos, hoasca, vegetal, ou simplesmente chá), esta liberação estava sujeita a uma revisão. Muitos membros da UDV eram médicos, psiquiatras ou estavam ligados a outros tipos de especialidades médicas, e se mostraram mais receptivos à idéia da condução de um estudo biomédico da ayahuasca quando Luna e McKenna a propuseram. Isto fazia parte dos objetivos deste grupo, sendo uma das razões para o convite aos pesquisadores estrangeiros para a primeira Conferência sobre os Estudos Médicos da Hoasca.
Além da oportunidade de satisfazer a curiosidade científica a respeito da farmacologia humana da hoasca, a UDV precisava demonstrar às autoridades de saúde brasileiras que o uso prolongado do chá de hoasca era seguro e não causava dependência nem outras reações adversas. Os médicos da UDV tinham esperança que os cientistas estrangeiros colaborassem na pesquisa. A questão de como seria estabelecida a fundação de tal estudo estava ainda por ser respondida.
Depois da conferência de 1991, McKenna retomou aos Estados Unidos e iniciou o esboço de um projeto onde seriam descritos os objetivos do estudo que ficou conhecido como Projeto Hoasca. Inicialmente, a intenção era submeter a proposta a uma avaliação do Instituto Nacional do Abuso de Drogas; porém, à medida que o projeto ia tomando forma, tornou-se claro que os fundos para uma tal pesquisa não viriam de nenhuma agência governamental. Não somente por causa dos problemas de ordem legal, logística e política que dificultavam a liberação destas verbas, mas porque este Instituto não via com bons olhos qualquer proposta que não se alinhasse com a sua demonstração das presumidas conseqüências desastrosas do uso das drogas psicodélicas. Felizmente, McKenna mantinha conexões com a Botanical Dimensions, organização sem fins lucrativos que se dedica à investigação da etnomedicina de plantas importantes, e através dela conseguiu os recursos necessários para a pesquisa.
Com uma base financeira assegurada, pelo menos para uma pesquisa modesta, McKenna convocou a colaboração de diferentes talentos entre seus vários colegas das comunidades médicas e acadêmicas. Formou-se uma verdadeira equipe internacional e interdisciplinar de estudo, que contava com cientistas da UCLA, da Universidade de Miami, da Universidade de Kuopio, na Finlândia, da Universidade do Rio de Janeiro, da Universidade de Campinas, e do Hospital Amazônico de Manaus.
No verão de 1993, a equipe retomou a Manaus para iniciar a fase prática da pesquisa, que seria conduzida usando voluntários entre os membros do Núcleo Caupari de Manaus, uma das mais antigas e maiores congregações da UDV brasileira. O grupo permaneceu no Brasil por cinco semanas, administrando doses-testes do chá da hoasca aos voluntários e coletando amostras de plasma e urina para análises posteriores, pondo em prática também inúmeras medidas psicológicas e físicas.
O resultado constituiu uma das investigações mais esclarecedoras e multifacetadas sobre os efeitos químicos e da psicofarmacologia da droga psicodélica, entre as que já tinham sido realizadas neste século. Os efeitos agudos e prolongados, advindos da ingestão regular do chá da ayahuasca, foram criteriosamente medidos e caracterizados; fez-se também extensivas avaliações psicológicas e entrevistas psiquiátricas intensas com todos os voluntários. A natureza da resposta serotoninérgica à ayahuasca foi medida e caracterizada; mediu-se pela primeira vez no plasma humano a farmacocinética da maioria dos alcalóides da ayahuasca. Quando terminou a fase de pesquisa de campo, os resultados foram publicados em brochuras cuidadosamente revisadas (Grob e outros, 1996; Callawaye outros, 1994, 1996, 1998), recentemente sumariadas através de uma apurada revisão (McKenna e outros, 1998). Dentre as suas principais descobertas, destacamos a constatação de que os membros mais antigos da UDV, aqueles que mais passaram por esse tipo de experiência, mudaram sua vida e seu comportamento de um modo profundo e positivo; verificou-se ainda urna persistente elevação de seretonina nas plaquetas, possivelmente indicativa de uma modulação serotoninérgica similar de longa duração, ocorrendo no sistema nervoso central, que a longo prazo poderá refletir mudanças adaptativas nas funções do cérebro. O estudo também estabeleceu que o uso da hoasca é seguro, pelo menos dentro do contexto ritualístico, somado ao apoio existente no ambiente social da UDV, e não apresenta a longo prazo nenhuma toxidade adversa; além disso, sua utilização parece mesmo demonstrar que exerce influências positivas sobre a saúde física e mental.

O FUTURO DA PESQUISA SOBRE A AYAHUASCA
Tanto a fase de trabalho de campo como a de laboratório foram finalizadas há algum tempo; agora o projeto está no estágio final, até porque seus últimos relatos foram aceitos para publicação. Como este estudo da ayahuasca foi concebido como um estudo piloto, seus objetivos foram modestos e tentaram apenas indicar um direcionamento para futuras pesquisas. E por ter partido desse ponto de vista, obteve um enorme êxito. Como toda boa ciência, levantou mais interrogações do que respostas, sugerindo diversas questões para pesquisas posteriores. Uma vez que a ayahuasca teve uma demonstração clara de que é segura, não tóxica e terapeuticamente útil para a medicina, é de se esperar que as pesquisas futuras lhe devotem um interesse que esteja a sua altura, e que possam conseguir recursos financeiros para explorar todo seu potencial de cura.
ALGUNS TEMAS ESPECULATIVOS
Depois que o Projeto Hoasca encerrou seus trabalhos, passou a existir urna base sólida de dados para as investigações científicas futuras, porque este estudo teve como base o campo laboratorial e clínico. Entretanto, se nos colocarmos fora do perímetro da noite fria da razão científica, resta ainda um bom número de temas em torno da ayahuasca, que não podem ser resolvidos apenas pela ciência, pelo menos através dos métodos científicos que conhecemos.
A ayahuasca sempre esteve simbioticamente aliada à espécie humana; sua associação com as demais espécies remonta, pelo menos, à pré-história do Novo Mundo. As lições que dela adquirimos, no curso milenar de nossa coexistência evolutiva, podem ter acarretado implicações profundas naquele que se constituiu em um ser humano inteligente no interior da comunidade biosférica das espécies.
Apesar de não termos certas respostas, a questão da natureza e das significações existentes na relação entre o homem e o cipó visionário e, por extensão, com todo o universo das plantas mestres, nos mantém perplexos. Por que existiriam plantas contendo alcalóides, análogos aos nossos neurotransmissores, que se tornam capazes de “falar” conosco? E que tipo de “mensagem” estão tentando nos transmitir, se é que há de fato alguma? Foi apenas uma coincidência, puro acidente que guiou os primeiros e experientes xamãs para fazer uma combinação do cipó da ayahuasca com as folhas da chacruna, obtendo o chá que pela primeira vez deu ensejo à contemplação das “terras invisíveis”? Por que os ingredientes misturados para fazer um chá não foram utilizados como alimento? Ao ouvirem tais indagações, os ayahuasqueiros nos dirão simplesmente que “o cipó fala”. Outros, tentando ser mais sofisticados e racionais, fornecem melhores explanações, discorrendo sobre os alcalóides das plantas como se estes fossem mensageiros de interespécimes silvestres, ou portadores de pistas sensóriotrópicas, que capacitam os seres humanos a selecionar e utilizar as plantas biodinâmicas do seu ambiente.
pablo amaringo ayahuascaOutros, no entanto, como os irmãos McKenna no seu trabalho inicial e o antropólogo Jeremy Narby que fez uma reformulação da questão com uma teoria similar a deles (McKenna e McKenna, 1975; Narby, 1998), argumentam que as experiências visionárias propiciadas por plantas como a ayahuasca nos fornecem um insight -um conhecimento objetivo -a respeito do fundamento molecular do ser biológico, e ainda afirmam que este conhecimento objetivo, que só agora está sendo revelado ao mundo científico pelos métodos crus da biologia molecular, sempre esteve disponível para os xamãs e seus seguidores por meio de uma experiência direta com a sabedoria das plantas aliadas.
Tais noções são seguramente especulativas, não científicas; no entanto, na condição de observador do mundo contemporâneo, que vem se envolvendo com a ayahuasca de maneira pessoal e científica por tantos anos, cheguei à conclusão que estas especulações “libertárias” continuarão vivas, a despeito do quanto tentemos dessacralizar seu chá, tornando-o uma matéria para a química, a botânica e a farmacologia. Embora todas essas perspectivas sejam importantes, acredito que nenhuma delas jamais poderá explicar o mistério profundo e inquestionável que há na ayahuasca.
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