Timewave Zero
Sociedade Psicodélica
Terence McKenna
no Instituto Esalen em junho de 1984.
Eu quero falar esta noite a respeito da noção de uma sociedade psicodélica. Quando eu falei em Santa Bárbara em uma conferência sobre psicodélicos em maio de 1983 minhas lentes de contato falharam em um ponto crítico na minha leitura e eu simplesmente tive que improvisar. Mais tarde quando eu ouvi a fita da gravação eu ouvi a frase “sociedade psicodélica.” Eu nunca usei este termo conscientemente em uma conversa. Mas porque eu havia dito, e porque havia acontecido uma ressonância através das pessoas que estavam lá, eu comecei a pensar sobre isso e esta noite irei especular sobre o que isto pode significar para nós.
Quando eu penso em sociedade psicodélica, esta noção implica em criar uma sociedade que vive à luz do Mistério da Existência. Em outras palavras, problemas e soluções deveríam ser retiradas de seu papel central nas organizações sociais, e Mistérios – Mistérios irredutíveis – deveriam estar em seu lugar. Nos anos 20 o entomologista britânico J.B.S. Haldane disse em um ensaio, “O universo pode não ser apenas mais estranho como supomos; ele pode ser mais estranho do que nós podemos supor.”
Eu sugiro que assim como nós olhamos para trás em cada ápice da civilização na história humana - seja ela Maia, ou Greco-Romana, ou a Dinastia Sung – temos acreditado que isso aconteceu graças à posse de uma descrição apurada do cosmos e da relação do homem com ele. Isto parece ir junto com o completo florescimento de uma civilização. Mas, a partir deste ponto de vista da nossa presente civilização, nós consideramos todas estas concepções como se fossem piores, de segunda mão. Nós nos orgulhamos que nossa civilização tem a última e real descrição sobre o que está acontecendo.
Eu considero isto um erro, e que atualmente nos cega, ou torna nosso progresso histórico muito difícil, é nossa falta de atenção que nossas crenças se tornaram obsoletas e deveríam ser colocadas de lado. Uma sociedade psicodélica abandonaria os sistemas de crenças pela experiência direta. É o que eu penso a respeito a do problema do dilema moderno: a experiência direta foi descontada, e no seu lugar todos os tipos de sistemas de crença foram criados.
Eu preferiria um tipo de anarquia intelectual onde não importa o quê fosse pragmaticamente aplicável e fosse trazido de qualquer situação; onde crença fosse entendida como uma função auto-limitante. Porque, veja, se você acredita em alguma coisa você é automaticamente impedido a acreditar em seu oposto; que significa que um grau da liberdade humana foi coisificada no ato de se submeter à esta crença.
Eu insisto que é supérfluo ter crenças, porque o universo é realmente mais estranho do que nós supomos, precisamos retornar para o que no século XVI era chamado de método Baconiano; que não significa a elaboração fantástica de construções de pensamentos que explicam a natureza, mas somente uma catalogação dos fenômenos que nós experimentamos. Redes de computadores e drogas psicodélicas e a crescente disponibilidade de informação no mundo têm tornado possível a evolução de novos estados de informação que nunca existiram anteriormente. Estamos processando estas novas oportunidades em uma razão muito devagar porque estamos sendo impedidos pela ideologia.
Os modelos Freudianos e Junguianos enxergam a experiência psicodélica como um desmantelamento da resistência em revelar emoções, motivos e sistemas de crenças escondidas e complexas. Esta noção, há cinco ou dez anos, foi substituída pelo modelo de experiência alucinógena xamânica. Este modelo sustenta que pessoas arcaicas têm delegado membros especiais de uma sociedade para provar informações de domínio secreto usando drogas psicodélicas. A informação extraída destes domínios são então usadas para guiar e direcionar a sociedade.
Eu estou interessado neste segundo modelo. Tenho gastado algum tempo na Amazônia e estou familiarizado com os mecanismos operacionais do xamanismo e personalidades xamânicas. Acredito que a experiência psicodélica vai além da instituição do xamanismo. Estamos diante de uma oportunidade única de arremessar de lado a crise da cultura mundial.
Nossa habilidade de destruir a nós mesmos é a imagem espelhada da capacidade de nos salvarmos. O que está faltando é uma visão clara do quê deveria ser feito. O que deveria ser feito certamente não é a acumulação cada vez maior de arsenal termonuclear ou a promoção de todo o tipo espetáculos de primatas – que Tim Leary tem muito bem denunciado. O que precisa ser feito é que nossas concepções ontológicas fundamentais de realidade precisam ser refeitas. Precisamos de uma nova linguagem, de modo que para ter uma nova linguagem precisamos de uma nova realidade. É um tipo de equação urobórica, ou uma situação de desvencilhamento. Uma nova realidade gerará uma nova linguagem. Uma nova linguagem fará uma nova realidade se legitimar e ser uma parte desta realidade.
As substâncias psicodélicas podem ser imaginadas como pontos de uma grade de informações. Elas provêm novas perspectivas na realidade, e quando você reconecta todos os pontos de vista que você coletou considerando realidade, então um modelo aplicável de realidade e que faça sentido começa a surgir.
Eu penso que esta realidade aplicável e que faça sentido – o que Wittgenstein nomeou algo como “suficientemente verdadeiro” - é o que estamos procurando. O “suficientemente verdadeiro” mapeando por cima da teoria é o que estanos procurando, mas a experiência deve ser feita primeiro. A linguagem do Eu deve ser feita primeiro.
O que eu estou defendendo é que cada um de nós tome responsabilidade pela transformação cultural, que não é algo que seria disseminado de cima para baixo. É algo que cada um de nós podemos contribuir nos esforçando a viver tão para dentro do futuro quanto possível. Devemos nos livrar das concepções de anos 40, 50, 60, 70, 80, 90. Devemos transcender o momento histórico e tornarmos exemplares de humanidade no Fim do Tempo.
Alguns de vocês que acompanham minha leitura esta tarde se preocupam em saber que eu acredito que liberação – ou vamos dizer “decência” - como uma qualidade humana e antecipação deste estado perfeito da humanidade futura. Podemos ter vontade de aperfeiçoar o futuro nos tornando um microcosmo do futuro perfeito, não mais distribuir culpa para instituições ou hierarquias de responsabilidade ou controle, mas dar-nos conta que a oportunidade está aqui, a responsabilidade está aqui, e os dois nunca se tornem congruentes denovo. A salvação para o nosso espírito imortal depende do quê você faz com as oportunidades que a vida lhe dá.
Então, o que faremos com a oportunidade? O quê significa dizer, em termos operacionais, “Viva tão longe ao futuro quanto puder?” Significa tomar uma posição vís à vis da emergente realidade hiper-dimensional. Isto não significa necessariamente tornar-se um usuário de drogas psicodélicas; mas significa admitir esta possibilidade. Se você sente um potencial heróico dentro de você para ser um dos experimentadores – um dos pioneiros – então você sabe o que fazer. Se por outro lado você se sente perdido no abismo – se você se sente como William Blake chamou de “caindo para a eterna morte,” caindo do espiral da existência que conecta uma encarnação à outra – então oriente-se para a experiência psicodélica como uma fonte de informação.
Uma imagem espelhada da experiência psicodélica emergiu com o hardware e software integrados às redes de computadores. A internet e a www são, paradoxalmente suficientes, uma profunda influência feminilizante na sociedade. Isto está no desenvolvimento de hardware/software que inconscientemente está se tornando consciente. Esse é um pensamento que tomamos do bon mot platônico - “Se Deus não existisse, o homem deveria inventá-lo” - e disse, “se a inconsciência não existe, a humanidade a inventará na forma de vastas redes que serão capazes de transferir e transformar informação.”
Isto é, de fato, onde estamos presos: a transformação de informação. Nós não mudamos fisicamente nos últimos quarenta mil anos. O tipo humano está bem estabilizado antes do fim da última glaciação. Mudanças que foram feitas antigamente no âmbito biológico está acontecendo agora no âmbito cultural. Estamos abrigando presunções culturais e nos preocupando com nossa visão do mistério unitário em uma razão cada vez mais rápida, enquanto tentamos nos acomodar ao desdobrameno daquele mistério que se deita diante de nós no tempo. Este é o processo que está fundindo a vasta sombra de destruição por cima de toda a experiência da história humana.
Anterior à nossa própria era, a única palavra que poderia ser aplicada para esta força que faz as pessoas se unirem, causando nascimento e morte, levantando e derrubando civilizações, era Deus; e isso era imaginado como uma forna auto-consciente que estava aprendendo a respeito do mundo como um gato aprende a respeito do aquário e fazendo as coisas acontecerem. Agora temos uma noção diferente – a noção de um sistema vetor que força uma grande área que está sendo empurrada para um espaço muito pequeno, e este pequeno micro-setor de tempo/espaço é a história. É um ímpeto que os budistas chamam de “o reino densamente empacotado,” um reino onde os opostos estão unificados.
A história é este reino onde o corpo é finalmente interiorizado e a mente exteriorizada. Penso a mente como um órgão da quarta dimensão no nosso corpo. Você não pode vê-lo porque ele está na quarta dimensão, mas você experimenta uma baixa dimensão seccionando-a no fenômeno da consciência. Mas isto é somente uma secção parcial. assim como uma elipse é um desenho parcial de um cone.
O crescimento dos sistemas de informação é somente um reflexo do hardware masculino do que já existe na natureza como um fato. Agora nos resta afiar nossas intuições e nos tornarmos atentos a este sistema preexistente e ligá-lo para que possamos estar um passo a frente dos dualismos que nos separam dos outros e do mundo. Precisamos nos dar conta que há um enxame de genes – e não um grupo de espécies – no planeta; que metade do tempo você está pensando no que está escutando; que idéias são criaturas notavelmente escorregadias que são difíceis de traçar sua origem; e que estamos realmente no mano-a-mano e todos juntos em uma dimensão que não é tão acessível e sólida como você desejaria que fosse (como Joyce comenta em Finnegan's Wake).
Os psicodélicos são o red-hot, a edição social/ética porque eles são agente descondicionadores. Eles levantarão dúvidas se você é um rabino ortodoxo, um antropólogo marxista, ou um homem de altar porque o seu negócio é dissolver sistemas de crenças. Eles fazem isso muito bem, e depois eles deixam você com uma ferida na experiência, o que William James chamou – tomando uma experiência infantil – “uma confusão florida, barulhenta.”
Fora isso você reconstrói o mundo e precisa entender que esta reconstrução é um diálogo onde suas decisões – a projeção de sua gramática no espaço intelectual em sua frente – irá formar um gel sobre o ser. Nós todos criamos nosso próprio universo porque estamos todos operando com a nossa própria linguagem privada que são somente traduzíveis através da linguagem de outra pessoa. Há ainda um análogo físico a isto que irá promover um reforço desta noção de separação e nossa singularidade.
A imagem do mundo que se forma em seus olhos é feita de fótons. Fótons são minúsculos pacotes de luz tão próximas que podem ser pensadas como partículas. Isto significa que cada fóton que toca o fundo dos seus olhos é diferente dos fótons que tocam o fundo dos olhos de qualquer outra pessoa. Isto significa que eu me baseio em uma seção do mundo 100% diferente da imagem que qualquer um de vocês estão se baseando. E ainda estamos sentados aqui com uma suposição ingênua de que nossas imagens do mundo diferem somente pela nossa perspectiva dentro do espaço desta sala.
Temos inúmeras suposições ingênuas como esta construção do nosso pensamento. Nosso mecanismo explanatório mais venerado – tal como “ciência” - surge também como nosso mecanismo explanatório mais velho. Portanto, eles têm se construídos como a mais ingênua e não-examinada suposição. “Ciência”, por exemplo, podemos demolir em trinta segundos. A “ciência” diz a você um grupo de condições que criará um efeito dado, e a cada momento que o grupo de condições estiver em seu lugar o efeito será obtido. O único lugar que isto acontece é dentro de um laboratório. Nossa experiência não é assim. O contato com uma pessoa é sempre diferente. A experiência de fazer sexo, comer uma refeição, tomar um ônibus – isto penetra no ser – e torna suportável de todo jeito. A “ciência” ainda deseja dizer a você que somente o valor das coisas descritas em um fenômeno podem ser disparadamente repeditas. Isto se dá porque estes são somente os fenômenos que a ciência pode descrever, e é o nome do jogo com o qual ela se preocupa.
Mas nós temos que reivindicar nossa liberdade – tomar vantagem do abismo minúsculo entre o imenso abismo do desconhecimento; seja talvez a morte, ou reencarnação, ou transições para outras formas de vida. Estas coisas nós não sabemos ou entendemos, mas no momento que somos humanos temos a rara oportunidade de descobri-las. E eu tenho fé de que isto é possível – em algum lugar ou em algum momento. Talvez nenhum progresso seria feito até a nona hora em que a realidade pudesse ser literalmente fragmentada em pedaços, para além do ponto de reconstrução.
Existe, definitivamente, uma tendência anti humanista em todos os sistemas, Ludwig von Bertalanfe, que foi o inventor da teoria dos sistemas gerais, disse, “pessoas não são máquinas, mas em toda situação que elas tiverem a oportunidade, elas irão agir como uma.” Estamos todos caindo em padrões. Nós seguramos estes padrôes cada vez mais forte. Eles não podem ser violados; e isto acontece no nível das idéias.
Estamos agora no crista da onda da história, em tipo de aperto que nos devolve ao passado. Espero que tenhamos chegado ao fim desta fase. Queira você comprar minha visão apocaliptica transformadora envolvendo 2012, ou queira você dizer que somente por olhar ao seu redor você tem certeza que, logo, logo, a merda vai ser atirada ao ventilador, eu acho que nós concordamos que estamos diante de um impasse. O que está para acontecer será ou um grande deslocamento da biosfera, causando uma invalidação da inteligência como uma adptação biológica e nossa extinção; ou iremos nos tornar – como James Joyce sonhou - “o homem auto governável;” em outras palavras, a exteriorização do espírito e a interiorização do corpo.
Neste processo, tudo terá de ser desafiado. Toda a noção de humanidade será desafiada. Estamos à beira da manipulação do DNA, ou de tomar controle da forma humana, de sermos capazes de extender a noção de arte para dentro do corpo humano. Somos clássicos? Deveríamos ser Adonis e Perséfone? Ou o que somos nós? Somos surrealistas? Deveria eu ser uma batata ou uma girafa em chamas? Estas são questões que terão de ser enfrentadas. Eu sorrio enquanto falo isto, mas estas questões são importantes.
E a noção de ganho vertical que vemos nas metáforas feitas em relação à experiência psicodélica: expansão da consciência, ficar chapado (getting high - a tradução seria “elevar-se”), viagem psicodélica, vôo xamânico. É como se os alucinógenos fossem o feminino, o software, o formador, o cabo condutor do que está ocorrendo. Seguindo por trás vem o hardware, a mentalidade construtora masculina.
Isto irá continuar até que o cabo condutor das longas distâncias da engenharia contrutora se rompa. Esta é a crença xamânica: que nós podemos encontrar uma maneira de usar químicos em nossos corpos, usar nossas vozes, nossos pensamentos e nossas mãos por sobre nós e sobre os outros; para tranformar nós mesmos sem nenhuma tecnologia; para nos movermos no reino da imaginação com uma tecnologia psicofarmacológica interiorizada que nos liberte dentro da nossa imaginação.
Ao mesmo tempo isto está acontecendo com a mentalidade construtora masculina, que irá colocar sociedades humanas na órbita da terra/lua e em planetas próximos. Mas há um porém para a mentalidade construtora, que é um vácuo que envolve os planetas e exemplifica este abismo e o elemento feminino. É o mistério da Mama matrix de Finnegan's Wake. A misteriosa Mama matrix é o universo, e não há como escapar deste fato. Mas eu penso que a mentalidade construtora, que irá tentar transformar o homem em suas máquinas será desestabilizado pelos psicodélicos, pelo pensamento voltado ao planeta, pelo lado voltado à imaginação de nossa consciência, que irá criar as bases para o casamento espiritual que será a incubação química de um novo formato da humanidade; e isto não está longe.
Não pode estar longe. Esta é uma responsabilidade inerente a todos nós que nos faz criá-la. Há uma obrigação definida para examinar as possibilidades de ação, e para pensar claramente sobre si e sobre o outro, sobre a linguagem e o mundo, sobre o passado e o presente. Por muito tempo nós vivemos em um mundo definido pela geografia. Se você nasceu na Índia, você achará que o cosmos é de uma maneira. Se você nasceu no Brooklyn, você achará de outra. Precisamos transcender estas grades do destino biológico, que nos torna aquilo que nós não queremos ser. Nós podemos clamar por este nível mais alto de liberdade através do simples ato de prestar atenção à existência.
Precisamos começar a exprimir nossas visões ideológicas antes que sejamos consumidores das próprias. Precisamos desligar a nossa TV interna que nos puxa para as suposições culturais ditadas pelo Pentágono, Madison Avenue, e pelo estado corporativo. Precisamos, ao invés disso, ligar nossos modems e começar a interagir como pessoas dotadas de mentalidade pelo mundo afora e estabelecer esta nova ordem intelectual que será a salvação da biosfera, eu acredito firmemente nisto. A internet finalmente concretiza nossa coletividade permitindo que pessoas sintam a interrelação de seus destinos; sentem a interrelação como uma coisa que transcende divisões nacionais, divisões ideológicas. A net permite que cada um de nós recupere a experiência de ser parte de uma família humana.
Nenhuma reconstrução de sociedade pode ser feita sem psicodélicos porquê nós perambulamos durante muito tempo sem eles. Certamente somos produtos de uma sociedade que foi longe demais sem psicodélicos como nenhuma outra cultura no mundo. Isto foi há dois mil anos desde que o Mistério foi real em Eleusis e nestes dois mil anos perambulamos longe na disfunção e na confusão. Mas nós somos filhos pródigos. Podemos reparar a idéia de xamanismo a partir do estase social pré-tecnológico e projetá-lo, aperfeiçoá-lo e viajar com ela para além das estrelas.
E se não fizermos, tudo estará perdido. Há somente riscos e comprometimentos nestas aspirações milenares e nestas metas culturais, metas que têm o potencial de restaurar o significado e a direção para nossa civilização. Se isto não for feito iremos fragmentar nossa oportunidade e deixar o horror e a destruição do típico cenário futuro.
Anarquicamente copiado de:
FORTE, Robert. Entheogens And The Future Of Religion. San Francisco, CSP, 1997.
Humildemente traduzido por:
Waver
Versão copyleft – idéias não têm dono. Espalhe a palavra.
DMT - A Molécula do Espírito
DMT significa dimetiltriptamina, uma família de compostos análogos à serotonina sintetizados por diversas plantas e animais, incluindo mamíferos e humanos. Caso os nossos níveis endógenos dessa substância se elevem acima do nosso patamar comum nesse instante, seja por causa experiências de quase-morte, aparições de natureza sobrenatural, religiosa, ou por ingestão intencional da substância em dose suficiente seja por meio da ayahuasca, do yopo, do psilocybe, do Bufo Alvarius, do extrato puro, duas coisas passam a acontecer: comunicação com entidades percebidas como externas, capazes de articular informações antes tidas como desconhecidas, identificadas através dos tempos como pessoas que já se foram, divindades diversas, alienígenas ou partes inconscientes da mente tornadas manifestas, a depender do contexto cultural; manifestação da sintaxe de nossa linguagem como um elemento visual através da transformação da fala em um instrumento capaz de criar, através do som de nossa voz, objetos ambíguos e portanto impossíveis em nossa atual percepção tridimensional: corpos que representam mais de uma forma ao mesmo tempo, trazendo para o domínio da visão as aptidões da comunicação oral para o duplo sentido.
Em nosso mundo não há consenso sobre a natureza dessas entidades nem sobre as transformações sintáticas das quais elas participam, em grande parte devido a nossa hostilidade frente a presença da dimetiltriptamina. Hipotetiza-se que a DMT tenha papel importante nos sonhos: e não seriam eles formas diminutas do ato fundamental dessa substância, a transformação de idéias em imagens concretas? Talvez nossos sonhos sejam um degrau na escalada dos níveis de DMT todas as noites, após o qual adentramos no universo das triptaminas do qual nunca conseguimos nos lembrar. E de maneira a ratificar essa hipótese, há a exceção de pessoas que já utilizaram a substância e relatam lembranças de sonhos onde ocorreu uma experiência de estar nesse mundo.
Enquanto a DMT unifica os sentidos da visão e audição ao permitir que ocorra uma comunicação visual que incorpore os elementos ambíguos do mundo aural, a escrita elimina da comunicação elementos da fala e separa os sentidos em dois universos distintos ao reduzir as palavras a seus elementos básicos, despidos de tons e variações pessoais. Sociedades que incorporam triptaminas como parte integral de sua cultura expressam a crença em espíritos naturais que controlam os ritmos dos rios e das prósperas florestas; sociedades que criaram a escrita nos cenários áridos e por vezes desérticos de seus vales julgam-se capazes de controlar, por meio de sua invenção, os ritmos de seus cenários inóspitos através da agricultura, das cidades e suas estruturas sociais. O impulso de controle da mente sobre a matéria conforme compreendido pela escrita mais se exarcerbou na civilização ocidental, onde o alfabeto, favorecido pelas condições extremas do Mediterrâneo, separou os sentidos como nenhum outro sistema de escrita. Essa separação se exarcebou a níveis inéditos com a invenção do livro impresso, e mais tarde com a Revolução Industrial que possibilitou sua reprodução em massa: caracteres uniformes que divulgavam uma separação entre os sentidos com um envolvimento muito menor do que a escrita à mão.
Antes da invenção da escrita, a humanidade vivia em uma relação de simbiose com a 4-HO-DMT; após a sua invenção, a DMT foi relegada ao papel de mistério, um segredo de grupos restritos durante a Antiguidade, para então assumir uma posição de substância obscura ou até mesmo desconhecida durante a Idade Média, reemergindo durante os Descobrimentos guiados pelo livro impresso como heresia, transformando-se com o progresso das novas mídias elétricas dos século vinte e seguinte em uma substância mais aceita a medida que nossas tecnologias convergem em direção aos cenários apresentados pelas triptaminas: já foram formuladas várias teses do espaço virtual como um sonho, algo que assim como a experiência da DMT captura os rígidos alicerces da realidade e os transforma em uma sintaxe livre onde há irrestrita transformação pelas forças imaginativas.
O Ocidente, do auge de sua sofisticação tecnológica, marcha na direção de reviver os modos de percepção dos mais primitivos estágios da humanidade, hoje encontrados somente em remotas tribos e grupos urbanos por poucos conhecidos. Se a DMT de fato produz os sonhos, a metáfora de um adormecer soa perfeita. Já virtualmente sonolentos caminhamos para o lugar onde estávamos: em 21/12/12 às 11:11 UTC, no início da noite do 13º b'ak'tun, encontramos a nossa triptaminada cama pré-histórica, onde se deixarão conhecer os mistérios subconscientes antes tornados sombrios pela luz do dia.
Link do Vídeo Dividido em 5 Partes Sobre o DMT:
http://www.youtube.com/watch?v=67Say7G7CPM&feature=related
Notas:
"TM: I really haven't had experiences with lucid dreaming. It's one of those things that I'm very interested in. I'm sort of skeptical of it. I hope it's true, because what a wonderful thing that would be.
HT: You've never had one?
TM: I've had lucid dreams, but I have no technique for repeating them on demand. The dream state is possibly anticipating this cultural frontier that we're moving toward. That we're moving toward something very much like eternal dreaming, going into the imagination, and staying there, and that would be like a lucid dream that knew no end, but what a tight, simple solution. One of the things that interests me about dreams is this -- I have dreams in which I smoke DMT, and it works. To me that's extremely interesting, because it seems to imply that one does not have to smoke DMT to have the experience. You only have to convince your brain that you have done this, and it then delivers this staggering altered state." (TERENCE MCKENNA)
"The elves were dancing in and out of the multidimensional visible language matrix, "waving" their "arms" and "limbs/hands/fingers?" and "smiling" or "laughing," although I saw no faces as such. The elves were "telling" me (or I was understanding them to say) that I had seen them before, in early childhood. Memories were flooding back of seeing the elves: they looked just like they do now: evershifting, folding, multidimensional, multicolored (what colors!), always laughing, weaving/waving, showing me things, showing me the visible language they are created/creatures of, teaching me to speak and read. (Are they are linguistic programs made manifest and personified? This throws an entirely new light on Terence McKenna's remark at Esalen about language being the "most alien artifact" we have!)" (GRACIE & ZARKOV )
"I finally relaxed, enjoying the inevitability of it all. instantly, flowers looking like opium poppies surrounded me and the 'machine-elves' of DMT fame came to visit. They assured me that I was safe, and really a nice guy to boot. In their high pitched collective voice, they sang a song revealing to me not only my own nature, but that of all creatures as well. They assured me that my DNA was not only similar to their own, but part of as well as *encompassing* their own 'code'. They stressed the simultaneousness of this seemingly contradictory statement. I started to laugh out loud, mostly at the absurdity of it all. My laughing became uncontrollable. It should be added that at this point I was so immersed that it did not matter if my eyes were open or closed. However, this laughing was the first event in what seemed like months which reminded me of my personal form and body. And I laughed... I could not stop!
The laughing at one point 'locked on' to a particular vocal frequency, and I could not get it to budge. Indeed, I was aware that I was releasing a monotonal hum. Even breathing did not seem to interfere with its clarity. I found it satisfying, and started to explore. By going with the sound, instead of trying to stop it, it grew louder and louder. Eventually it culminated in what McKenna correctly describes as a metallic buzzing sound. Very much like the sound of a cicada, but with many other elements added. I did feel as a bug making the sound, and I had an intuitive understanding of metamorphosis. As this sound continued, I noticed it was affecting my visions. Before, the elves were rapidly and almost violently competing for my attention, each trying to show me a better toy than the last. But this incredible sound caused them to order themselves into intricate yet subtle patterns of the greatest coherency. By slightly altering the pitch of the growl, or modulating it, the patterns changed. After some time, I could actually sculpt three dimensional objects. I did not attempt to make a chair, or a dog, or anything like that, but rather sculptures of pure light and revolving spheres, towers of emerald surrounded by throbbing orbs of sound and love. These were the toys I presented back to the machine-elves. This ability continued for what I would (with no way of ever knowing) say was roughly a half hour. This was the most satisfying, absurd, and enjoyable feeling I have ever had in my life. All frustrations associated with inability to express myself were flattened. It was as if I were vomiting my soul right into the air, where it loved to dance and play.
So now I am left with a ridiculous set of goals in life. I have done this again with another person who claimed the ability, and indeed the visions are seen by both parties. Like mental sex of untold richness. The possibilities of this 'language' with no danger of misinterpretation are so staggering I can't conceive of pursuing any other future for us monkies. To my amazement, and despite my wide sampling of the psychedelic community across the U.S., this phenomenon is almost unknown. I don't know what triggers it, only that if I eat enough mushrooms it will come. Strangely, I have not been able to have much success with the vocalizations on DMT, where this supposedly manifests itself more readily. " ( MANTUS, "A True Hallucination" , erowid.org DMT Vaults )
Nam mihi cum multa eximia divinaque videntur Athenae tuae peperisse atque in vitam hominum attulisse, tum nihil meilus illis mysteriis, quibus ex agresti immanique vita exculti ad humanitatem et mitigati sumus, initiaque ut appellantur ita re vera principia vitae cognovimus, neque solum cum laetitia vivendi rationem accepimus, sed etiam cum spe meliore moriendi. ( CICERO, De Legibus ) [ http://iamrcr.posterous.com/answering-frances-yates ]
Terapia para mendingos usará ayahuasca. O ESTADO DE SÃO PAULO/SP
Projeto de psiquiatra tem por objetivo recuperar dependentes de drogas e conseguir a reintegração social
Uma nova e polêmica experiência com o chá de ayahuasca, a conhecida bebida ingerida pelos adeptos da seita do Santo Daime, está prestes a ser iniciada em São Paulo. o psiquiatra e ex-mestre da União do Vegetal Wilson Gonzaga da Costa pretende oferecer a droga psicoativa a moradores de rua para tratamento de dependências e reintegração à sociedade. "Queremos proporcionar a recuperação mental e espiritual", afirma Costa.
O psiquiatra começou a envolver-se com moradores de rua há mais de um ano. No início, porém, limitava-se a distribuir sopa para um grupo no Largo Santa Seca, região central da capital. Há três meses, surgiu a idéia de dar o chá de ayahuasca como forma de tratamento. "A missão me foi dada pela força, em um dia que estava sob o efeito do chá", revela.
Costa garante que não tem a intenção de montar uma nova seita. "Estou apenas cumprindo minha missão", diz. Ex-integrante do Conselho Federal de Entorpecentes, o psiquiatra vai enfrentar uma intensa oposição. "Vou fazer de tudo para evitar que esse abuso se concretize", afirma o coordenador da Unidade de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira. "Isso é uma loucura", completa.
Laranjeira observa que a pesquisa vai usar uma população carente como alvo. "Muitos apresentam danos cerebrais, provocados pelo abuso de drogas", comenta. "Não há estudos sobre os efeitos do chá em pessoas tão vulneráveis." Para ele, há muitas outras formas de tentar ajudar moradores de rua. "Oferecer uma droga que pode piorar ainda mais a situação do grupo é, no mínimo, uma temeridade", diz. "O mais grave é que o psiquiatra está lidando com uma população muito carente, desorganizada, que é fácil manipular", completa.
Costa toma a bebida há 18 anos e está confiante. Ele explica por que a ayahuasca pode ter efeito benéfico em pessoas dependentes de drogas: "Ela provoca um estado alterado de consciência que pode levar o indivíduo a perceber seus conflitos mais íntimos." O psiquiatra diz que é como se o Daime desencadeasse uma auto-análise "muito intensa e produtiva". Mas ele mesmo admite que o uso tem de ser controlado. Pessoas com esquizofrenia ou com quadros intensos de paranóia não devem usar de forma nenhuma a substancia", diz. Há outra restrição: a droga deve ser usada apenas em rituais, para evitar que a experiência possa desencadear uma psicose. "Por essa razão, o chá será tomado sempre em um local fechado, seguindo os preceitos aprendidos por mim na União do Vegetal."
Experiência - Além da inspiração da "forca", Costa afirma ter obtido sucesso com a primeira experiência, feita há cerca de um mês. O chá foi oferecido ao mecânico desempregado e morador de rua Humberto, de 48 anos.
O psiquiatra explica por que escolheu Humberto: "Durante nossa convivência, ele deu várias demonstrações de que gostaria de mudar", afirma o psiquiatra. "Humberto vinha bêbado ou sob o efeito do craque, mas disposto a sair da rua", relata o psiquiatra.
Costa deu emprego e roupas ao mecânico. Depois de um tempo, ofereceu o chá. "Ele disse que a ayahuasca daria uma sensação de bem-estar, paz e resolvi experimentar", lembra Humberto. O mecânico, porém, não consegue relatar qual o efeito provocado. "Fiquei bem na hora e nos dias seguintes: sinto confiança e uma força que não sei de onde vem", descreve. Segundo ele, desde então, não voltou a usar craque. "É difícil, mas estou conseguindo.''
Humberto garante que mudou depois de se dar conta de todo o processo de destruição pelo qual passou. "Há alguns anos, tinha uma família e uma casa cheia de eletrodomésticos", afirma. Como tantos outros viciados, depois de começar a fumar craque, o mecânico vendeu tudo, até mesmo o botijão de gás. "Fiquei maltrapilho, mas agora tenho o prazer de poder entrar em um ônibus e sentar normalmente ao lado de outro passageiro."
O tempo de abstinência ainda é curto para dizer se Humberto está livre de recaídas. Mesmo que a melhora seja constatada, Costa admite que outros fatores podem ter contribuído. "Demos a ele emprego, um grupo de referência e o valorizamos." Mesmo ainda sem parâmetros certos, a experiência vai continuar. "Estamos dando o chá à nossa equipe e, em uma segunda etapa, queremos preparar os próprios moradores para oferecer assistência ao grupo."
Resultados de estudos são controvertidos
Idéia é comprovar influência sobre o abandono do álcool
Os efeitos terapêuticos da ayahuasca estão sendo investigados por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Os estudos, que em nada se relacionam com a experiência do médico Wilson Gonzaga Costa, apresentam resultados surpreendente e, ao mesmo tempo, controvertidos.
O psiquiatra Eliseu Labigalini Júnior apresentará no próximo mês sua tese sobre o uso da ayahuasca por ex-dependentes de álcool. Em 1993, pesquisadores de vários centros fizeram uma investigação em uma comunidade da União do Vegetal (UDV), na Amazônia. Durante o estudo, foram realizados testes e entrevistas com 15 integrantes da seita, que tomavam o chá havia mais de dez anos. o mesmo foi feito com um grupo de controle. ''Verificamos que 11 dos integrantes da seita tinham uma história de uso moderado e severo de álcool, antes de ingressar na UDV", conta Labigalini Júnior.
Pouco tempo depois de entrarem na seita, o consumo foi abandonado. "Muitos diziam perceber, durante o estado alterado de consciência, que estavam trilhando um caminho que inevitavelmente os levaria à ruína, a menos que mudassem radicalmente de conduta", revela.
Ex-dependentes - As fortes experiências fizeram com que, aos poucos, o álcool fosse deixado de lado. "Fiquei curioso com esse resultado e, por isso, resolvi estudar novamente o assunto", explica Labigalini Júnior.
Em sua tese, o psiquiatra acompanhou os casos de quatro ex-dependentes de álcool. A exemplo do que ocorreu com integrantes da UDV no Amazonas, todos abandonaram o vício depois de entrar na seita. "Eles não trocaram uma dependência por outra", garante Labigalini Júnior. Segundo ele, até hoje não há nenhum estudo que comprove que o chá vicia.
De acordo com os relatos colhidos pelo psiquiatra, o estado provocado pelo chá permite o contato com todos os níveis de consciência - o chamado self.
Mas Labigalini Júnior reconhece que a ayahuasca apresenta alguns riscos. "O uso do alucinógeno tem de ser feito dentro de um contexto ritualizado", afirma. Caso contrário, há a possibilidade de o chá acarretar crises psicóticas. "A ayahuasca provoca uma espécie de ruptura das barreiras do Consciente", diz. "O ritual funciona como um limite protetor."
Todos os entrevistados ressaltaram que experiências com o chá trouxeram mudanças importantes. "Eles se deram conta do processo que estabeleceu a dependência do álcool", afirma.
Em todas as entrevistas, também há referências constantes sobre a sensação da presença de Deus. "As modificações no comportamento ocorreram lenta mente e por meio de uma tentativa concreta de mudança de hábitos."
Para o diretor do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Arthur Guerra de Andrade, o estudo de Labigalini Júnior é "ingênuo". "Em vez de fazer entrevistas, ele deveria indicar a um grupo o uso da ayahuasca e, a outro, um tratamento com drogas convencionais."
O coordenador da Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp, Ronaldo Laranjeira, é ainda mais crítico: "Todos sabemos que a religião em muitos casos faz com que o dependente deixe de usar a bebida", afirma.
Mas Labigalini Júnior se defende. "Em muitos casos, o que ocorre é que o dependente apenas transfere o objeto da compulsão", observa. "Ele deixa o álcool e torna-se um fanático religioso", completa.
O psiquiatra afirma que esse comportamento não foi constatado entre os integrantes da UDV. "Ficou claro que, com a transformação provocada pela ayahuasca, a causa da compulsão foi sanada." (L.F.)
Pesquisa investiga efeitos sobre sistema emocional
Psiquiatra da Unifesp usa colegas como cobaias em estudo iniciado há 8 meses
A forma como a ayahuasca interfere no sistema emocional está sendo detalhadamente acompanhada em uma pesquisa desenvolvida há oito meses pelo psiquiatra da Unifesp, Lúcio Rodrigues. Para fazer o estudo, ele conta com a colaboração de colegas que nunca haviam tomado o chá. Eles concordaram em participar, cada um, de três rituais e contar a experiência ao pesquisador.
"A primeira entrevista eu não levo em consideração, pois geralmente o ritual inicial vem acompanhado de grande expectativa", diz Rodrigues. Em entrevistas minuciosas, o psiquiatra pretende detectar o processo desencadeado pelo chá.
De acordo com o resultado obtido, o uso terapêutico da droga poderá ser pesquisado com maior profundidade. "A ação das substâncias alteradoras do estado de consciência sempre foi alvo de pesquisas sérias", diz o psiquiatra. "No entanto, depois da década de 60, quando as drogas começaram a ser usadas fora de rituais, houve banimento e grande preconceito."
Rodrigues lamenta o retrocesso. "Esse tipo de substancia talvez possa ajudar pessoas a entrar em estado de profundo auto-conhecimento", diz. O grande erro, no entanto, é usá-la fora do contexto ritual. "Sabemos que, quando usadas em seitas, as chances de ocorrerem surtos psicóticos são reduzidas praticamente a zero."
A exemplo do que constata o psiquiatra Eliseu Labigalini, também da Unifesp, Rodrigues acredita que o chá possa ser um instrumento de ajuda para contornar problemas graves como dependências. Para ele, o termo drogas alucinógenas - classe em que está incluída a ayahuasca - não é correto. "A expressão passa a idéia, incorreta, de que a substância provoca a deturpação da realidade." Há uma corrente que usa o termo enteógenas - que provoca um conhecimento do deus interior. "Não é necessariamente uma referência ao místico, mas à totalidade da consciência."
A pesquisa de Rodrigues pode ainda constatar como se comportam, ao tomar o chá, pessoas sem identidade religiosa. "Pelos relatos feitos por integrantes da seita, percebemos que a ayahuasca desencadeia um processo em que todos os níveis de consciência afloram." Um efeito que poderia ser obtido em um processo longo de análise. "Precisamos saber se o mesmo ocorre com quem toma o chá nos rituais, mas não se identifica totalmente com os preceitos das seitas." (L.F.)
Droga é ligada a rituais
A ayahuasca já fazia parte das celebrações indígenas antes da colonização
Os índios chamam-na de vinho da alma e vinho dos mortos. Em comunidades mestiças, ela é conhecida por Daime, caapi, pinde. Feita da combinação de um cipó e de uma planta chamada, chacrona ou rainha, a ayahuasca sempre esteve vinculada a rituais religiosos. Antes mesmo da colonização européia, tribos incluíam o chá nas celebrações. Atualmente, ela é usada em cerca de 20 seitas, que reúnem 10 mil seguidores.
A mais conhecida é a do Santo Daime, fundada na década de 20 pelo agricultor Irineu Serra. Os adeptos das seitas reúnem-se duas vezes por mês em rituais em que bebem o chá, cantam hinos que misturam temas de catolicismo e espiritismo e dançam. Na União do Vegetal (UDV), criada na década de 50, a música com temas religiosos também está presente.
O psiquiatra da Unifesp, Lúcio Rodrigues, explica que a rainha contém dimetiltriptamina (DMT), substância com efeitos antidepressivos, geralmente decomposta por via oral. Desde 1961, a DMT, em, sua forma sintética, é banida para uso humano pelo International Narcotics Control Board, órgão da Organização das Nações Unidos (ONU). No Brasil, o uso do chá é permitido pelo Conselho Federal de Entorpecentes, mas com restrições. A ayahuasca somente é liberada para uso religioso. Crianças, mesmo que acompanhadas por pais, não devem ingerir o chá. (L.F.)
Fonte: Departamento de comunicação e Marketing Institucional _Universidade Federal de São Paulo.
Ayahuasca: Uma História Etnofarmacológica
INTRODUÇÃO
No contexto tradicional, a ayahuasca é uma beberagem preparada através da fervura ou infusão das cascas e ramos da Banisteriopsis caapi junto à mistura de outras plantas. E, entre estas, o espécime mais comumente empregado é a rubiácea do gênero Psychotria, especialmente a P. Viridis, cujas folhas contêm os alcalóides necessários para o efeito psicoativo. A ayahuasca é o único preparado cuja atividade farmacológica depende de uma interação sinérgica entre os alcalóides ativos de suas plantas. Um dos seus componentes, a casca da Banisteriopsis caapi, contém alcalóides Beta-carbolinas, potentes inibidores MAO. Quanto aos outros componentes, as folhas da Psichotria viridis ou de outros espécimes semelhantes, contêm o potente agente psicoativo N,N-dimetiltriptamina (DMT). Por si só, o DMT não é oralmente ativo quando ingerido; no entanto, poderá se tornar oralmente ativo em presença de um inibidor MAO periférico, e esta interação é justamente a base da ação psicotrópica da ayahuasca (McKenna, Towers, & Abbott, 1984).RAÍZES PRÉ-HISTÓRICAS DA AYAHUASCA
Como mencionado acima, a ayahuasca tem uma posição especial entre as plantas alucinógenas, pois é preparada com a combinação de duas plantas: as cascas ou os ramos dos espécimes Banisteriopsis junto às folhas dos espécimes Psychotria, ou com outras misturas contendo DMT. A beberagem depende desta combinação singular para desencadear sua atividade. Existe a probabilidade de ter sido um acidente a descoberta da síntese dessas duas plantas como um preparado ativo. Nenhuma das duas é particularmente ativa quando sozinha; contudo, sabemos que esta unificação fortuita ocorreu em algum ponto da pré-história, ou seja, a ayahuasca foi “inventada” naquela época.
Mesmo que jamais venhamos a saber como ocorreu esta descoberta e quem foi o responsável, existem diversos mitos fascinantes sobre o tema. Os ayahuasqueiros do Peru nos dirão que o conhecimento deles vem diretamente das “plantas mestres” (Luna, 1984), ao passo que os mestres do culto sincrético brasileiro da UDV nos dirão com a mesma convicção que este saber é oriundo do “primeiro cientista”, o rei Salomão, que teria recebido toda a tecnologia de um rei inca por ocasião de uma visita, pouco divulgada, que ele fizera ao Novo Mundo na antigüidade. Na falta de datas, estas são as únicas tentativas de explicação; tudo o que podemos afirmar com segurança é que o conhecimento das técnicas de preparação da ayahuasca, e também das plantas que lhe são apropriadas, já estava difundido na Amazônia quando seu uso chamou a atenção de algum pesquisador moderno.
No campo da química, as investigações de Hochstein e Paradies (1957) confirmaram e expandiram o trabalho anterior de Chen e Chen (1939), e outros. Os alcalóides ativos da Banisteriopsis caapi e de algumas espécimes semelhantes foram firmemente estabelecidos como sendo a harmina, a tetrahidroharmina e a harmalina. Contudo, só no final dos anos 1960 é que surgiram os primeiros estudos mais detalhados a respeito do uso de tais misturas na constituição do componente, se não invariável, pelo menos regular do preparado da ayahuasca (Pinkley, 1969). Logo tornou-se aparente que pelo menos duas destas misturas -a Banisteriopsis rusbyana (reclassificada por Bronwen Gates como Diplopterys cabrerana) e os espécimes da Psychotria, especialmente a P. viridis (Schultes, 1967) -eram adicionadas no preparado para “fortalecer e expandir” as visões. Ocorreu outra surpresa quando as frações dos alcalóides obtidos desses espécimes provaram ser o potente alucinógeno -embora oralmente inativo -N,N -dimetiltriptamina (DMT) (Der Marderosian e outros, 1968). Este componente foi conhecido por muitas décadas como sendo um resultado sintético, já que seguia-se à síntese inicial de Manske; mas, sua ocorrência no campo da natureza, bem como suas propriedades alucinógenas, já tinham vindo à baila alguns anos antes, quando Fish, Johnson e Horning (1955) isolaram seu reputado princípio ativo na Piptadenia peregrina (reclassificada mais tarde como Anadenanthera peregrina), a fonte do pó alucinógeno utilizado pelos indígenas do Caribe e também na bacia do Orinoco, na América do Sul.O FUTURO DA PESQUISA SOBRE A AYAHUASCA


